31 de mar de 2011

Nat King Cole e a memória

Eu devia ter entre seis e sete ano quando conheci Nat King Cole. Passava de carro pelo viaduto Washington Luís quando começou a tocar uma certa canção no rádio. Larguei a boneca no banco e parei para prestar atenção. Não sabia nada de inglês, mas me apaixonei pela melodia e pela voz. Uma música daquelas não poderia ter uma letra que não fosse igualmente linda.

Passei muito tempo com aquela canção na minha cabeça, como uma canção de ninar. Unforgettable tornou-se parte de mim naquele dia. Ouvi-a ainda muitas vezes, ainda sem saber de quem era. Um dia perguntei ao Pai Forster e ele, também um apaixonado, me contou quem era e que outras coisas bonitas tinha feito.

Por algum motivo, Nat King Cole adormeceu em mim e só despertou de volta quando entrei na faculdade. Acho que entrei numa onda de busca. Busca por tudo, resumidamente. A partir daquele momento, Nat King Cole veio a ser trilha sonora de alguns romances, mas dos períodos de solteirice também. Unforgettable esteve entre as músicas importantes, mas principalmente Stardust, para a qual fiz um post há uns anos atrás e a qual dediquei à uma pessoa que foi, sem dúvida, muito importante.

Nat King Cole se tornou uma coisa intrínseca a mim. Li por esses dias que quanto mais associações uma certa coisa ou pessoa tem na sua cabeça, mais difícil fica de esquecê-la. E com este cantor/compositor/intérprete foi assim: ele se tornou associado a tantas coisas e pessoas que, se lembro dele, vem toda uma carga emocional, de experiência, de vivência - coisas que nem sempre eram boas.

E eu naquela ânsia doida de esquecer tanta gente e tanta coisa aprendi. Aprendi que é bom lembrar as coisas ruins para não cometer os mesmos erros e que é bom lembrar as boas porque... Porque são boas e fazem bem oras! Se foi bom, porque o pudor ao lembrar? Principalmente se a trilha sonora é de Nat King Cole? Se passou, passou, nada há de se fazer. 

Mas aprendi também que se esquecer não é o caminho, nostalgia também não é. Tanta coisa por viver ainda e eu simplesmente não posso reviver aquilo o que já vivi. Sou outra, somos outros. Os tempos são outros. As alternativas são outras, com direito a N.D.A. Se não me agradarem, crio outra ou fujo para Marte. Ou saio de moto na calada da noite, num zumbido secreto e ares de aventura.

Para que complicar? Deixo Nat King Cole fazer parte da minha vida e deixo que traga com ele, irremediavelmente, tudo aquilo o que ele simboliza, tudo aquilo o que expressa, toda a sua bagagem - ou melhor, a minha bagagem. E deixo também que certas coisas passem, mas faço questão que Nat King Cole permaneça - permanentemente.

Cadê?

Só posso notar uma ausência se o objeto já esteve lá?

30 de mar de 2011

Quero ser jogador de futebol!

Ainda isso me chocava, essa resposta automática que os meninos e adolescentes dão quando perguntados sobre o que querem ser quando crescer. Mas já ouvi coisa bem pior. 

Antes eu pensava sobre a falta de perspectiva diante do futuro que eles têm, pensava que isso ocorria devido a uma alienação do resto do munod, do resto das coisas que existiam. Em parte sim, afinal, jogadores de futebol ganham milhões para fazer uma coisa que ainda é paixão nacional, prazer de fim de semana, esporte de sedentário de escritório. E, para isso, eles não têm que estudar, precisam de talento e dos contatos certos, mas não têm que estudar.

Num mundo onde jogadores de futebol e sisters e brothers da Globo, para que estudar?

É o caminho mais fácil. Os jovens querem ser jogadores de futebol não só pela falta de perspectiva de futuro em qualquer outra coisa, no sentido de lutar por algo mais paupável (já que pouquíssimos seram jogadores de fato), mas porque a sociedade glamuriza isso: futebol, Big Brother e Cia.

Para que estudar se, mantendo meu corpinho lindo em forma, posso ter a chance de posar nua na Playboy? Para que estudar se os nosso políticos não se dão ao trabalho de aprender inglês, que ainda é a língua mais importante no mundo (pensando nas possibilidades de comunicação, não em ser "melhor" do que as outras) e é oferecida em todo lugar? Para que estudar se posso ir para o Big Brother e... fazer exatamente o quê lá? 

A vida é muito mais do que jogar no Real Madri ou no Corinthians, mas acredito que a realidade possa ser tão dura para esses meninos, que este parece ser o caminho mais fácil e de acesso mais imediato. Todavia, é a sociedade que reforça isso o tempo todo, como se não houvesse outras coisas para se fazer. O fato é que tudo está difícil e as coisas ficam mais complicadas ainda quando se tem pouco ou nenhum estudo. 

Vejo por mim e por outros amigos que no começo de carreira ganhavam muito pouco. Isso porque somos formados por uma importante e reconhecida universidade pública, o que não quer dizer nada em muitos lugares. Se nós, graduados no nível superior, já tivemos que passar por poucas e boas e muitas vezes não ganhamos o que seria o "justo" pelo nosso estudo, dedicação, blá blá blá, o que dirá quem completa o ensino médio meia boca. Quanto menos estudo você tem, mais você tem que se sujeitar a... tudo, qualquer coisa. Menos possibilidade de escolha.

Eu não me incluo nessa sociedade alienante, pois o meu discurso é outro. Não só o meu, mas o de muitos conhecidos - professores e não professores. A educação tem o poder de mudar as pessoas sim, mas, quem realmente está interessado nisso? A tendência é que as turmas de EJA (Educação de Jovens e Adultos), ensino supletivo do governo municipal, acabe. A justificativa da SME (Secretaria Municipal de Educação) é falta de demanda. Justificativa injustificável, visto que a área de São Paulo em que trabalho têm a maior taxa de analfabetismo entre adultos da cidade. E aí? Será que é a velha história de manter o povo ignorante mesmo para melhor manipulá-lo?

Os maiores ídolos nacionais estão ligados ao futebol. Sim, o esporte é uma possibilidade de superação, por isso apoio as iniciativas relacionadas a ele. Mas superação é muito diferente de se tornar o próximo Ronaldinho. 

O post veio de uma segunda-feira difícil, que me chateou de verdade. Não rolou nada sobre futebol na verdade, eu já vinha com a idéia do post na cabeça há algum tempo. Mas alguns acontecimentos me fizeram refletir e rever uma série de coisas sobre educação e sobre até onde posso ir, até onde vai o meu poder tranformador. O post veio também de uma conversa com o adorável Sr. A. e de como a educação o salvou de um destino cruel. Às vezes sinto que a educação acaba sendo para poucos também, mas me desespero ao acreditar, só por um segundo, que esses meninos não querem ser nada além de jogadores de futebol e que não consiguirei fazer nada para salvá-los de um destino cruel. Mas talvez eu tenha usado o verbo errado: salvar.

Ouvindo The kids aren't all right (Offspring)

Tum tum tum

Conversam:

A: - Meu coração dói.

B: - Partido? Ah!

A: - Não, meu coração realmente dói.

Ouvindo Me and Mr. Jones (Amy Winehouse)


29 de mar de 2011

"Pose"

Forster, Frau."Pose", 2004.
Esmalte sobre papel.

De carne e osso

Para Scarlet
 

Cansei de servir aos deuses terrenos. Deixei para trás as cerimônias, as elegias, as preces. Os sacrifícios. Eram deuses pecadores? Não, apenas humanos. Terrenos. Como esperar que sejam deuses? Sua ascensão aos céus? Nada. Mas isso não significa que não detenham uma pequena fagulha divina.

28 de mar de 2011

"Esboço feminino"

 
Forster, Frau. "Esboço feminino", 2002.
Lápis 6B sobre papel.

Diário: Lógica espanhola

Com a turma do sexto ano:

- So, what was your answer?

- Tia, você sabe falar espanhol?

- No, yo no hablo español.

- Mas como você diz que não sabe falar espanhol em espanhol?!

27 de mar de 2011

Para sempre Hebe e Silvio

Hebe Camargo e Silvio Santos são eternos, atemporais. Desde que me entendo por gente, eles são como são. Não envelheceram um só dia. Um dia, quando eu for pó, eles continuarão intactos! Eu passarei e  eles permanecerão. Na mitologia grega, Hebe é a deusa da juventude, o que torna a situação toda mais curiosa ainda. Mas e o Silvio? Como a natureza explica?

26 de mar de 2011

Só um amigo mesmo

Comentou qualquer coisa sobre precisar de uma válvula de escape.

- Por que você não arruma um namorado? - sugeriu a amiga.

- Melhor arranjar um passatempo a ter um cara como passatempo, acho. É feio eu me envolver com alguém só para me distrair, né?

- Então ache um cara de quem você goste.

- Não acho, vejo mais do mesmo. E o que poderia interessar, não interessa: uma vez que os vejo como amigos estão fadados a serem vistos assim para sempre.

Ouvindo The story (Norah Jones)

25 de mar de 2011

Diário: Grávida de Justin Bieber

Carlinhos* gosta de Justin Bieber, descobri isso hoje, enquanto ele trocava algumas figurinhas com uma colega. Ele se aproxima de mim com um bolo de figurinhas nas mãos e cola uma na minha barriga, sobre o avental de joaninhas:

- Tia! Você tá grávida do Justin Bieber!

E alguém completa:

- Mas aí ela ia precisar de um marido parecido com o Justin Bieber para o filho ser o Justin Bieber.

* nome fictício

blá blá blá o mundo está mudando blá blá blá

Se tem uma coisa que eu não aguento mais ouvir é que o mundo está em profundo processo de transformação. Não preciso nem abrir a janela, nem ligar a TV, nem me olhar no espelho, nem olhar para o lado. Basta abrir  os olhos e ser minimamente dotado de alguma percepção.

O mundo é um moinho

Para o Técnico

24 de mar de 2011

Amor eterno só tem dois: o de mãe e o do corintiano


Só conheço dois tipos de amor eterno: o de mãe e o de corintiano para com seu time. Sinceramente, não gosto muito de corintianos: dei azar de esbarrar com aqueles fanáticos insuportáveis e sei que nem todos são assim. Não que não haja fanáticos insuportáveis de outros times, mas o corintiano tem um não sei o quê de amor cego que o impele a ir até as últimas instâncias pelo seu time.

Assim, se por um lado eu não gosto muito daquelas pessoas para quem tudo é Corinthians - no melhor estilo Vai Curintia! - por outro, admiro esse amor, essa dedicação, essa paixão e essa união com o qual torcem. Os corintianos se reconhecem e se abraçam como uma grande família e acho isso bonito a sua maneira.

Amor eterno e fiel - nunca conheci um ex-corintiano.

23 de mar de 2011

Relacionamentos além das quatro operações matemáticas

 O Técnico queria dividir um pedacinho de seu mundo comigo. Rejeitei. Bom, rejeitar não rejeitei. Posterguei, na verdade - coisa que raríssimas vezes faço. Mas esse pedacinho veio uma hora, veio por esses dias. E descobri que era um pedacinho do meu mundo também! As aulas de matemática da primeira série pareciam nos unir: conjunto intersecção e o símbolo de "U" de ponta-cabeça ro[n]davam meus pensamentos. E esse pedacinho, tão aparentemente simples, me fez tremendamente feliz: o que ganhei do Técnico foi um daqueles agrados deliciosos, daqueles pequenos prazeres da vida que tanto celebro.


Os tais sapatos vermelhos e a transcendência

Tanto falei deles que tive que exibi-los na comemoração do núcleo fraternal. Exibi-los, não ostentá-los. Quando os comprei, pensava numa reportagem de revista de consultório de dentista, algo sobre o poder dos sapatos vermelhos. Com Dorothy Gale em mente, procurava um par de sapatinhos vermelhos. Sapatos baixos, pois quem me conhece sabe que eu não sou fã de sapatos de salto alto.

Sonho de consumo? Não sou muito disso. Sinônimo de poder? Poder sobre o que ou sobre quem? A mim me interessa poder sobre minha vida e meu poder de escolha e decisão. Não quero exercer poder sobre nada mais.  Muito menos sobre a sua vida. Simples. Mas não é que senti o tal poder? Principalmente porque eram de salto alto. Não tinha sapato baixo, só alto. Resolvi dar uma chance. E não é que gostei do que senti? Era como se esses centímetros a mais me fizessem ver o mundo por outra perspectiva.

Sem fantasia. Fosse minha, fosse masculina. Talvez os sapatos vermelhos sejam para combinar única e exclusivamente com meu novo tom de voz, meu ânimo redobrado. Sinceramente não sei. O que sei é que me senti muito bem. Claro que a Psicanálise provavelmente explica isso, mas não estou lá muito interessada nisso aqui. E eu mesma poderia arriscar que eles talvez representem  apenas uma forma de auto-afirmação.

É comum relegarmos (gosto desse verbo) nossa auto-afirmação a coisas externas. E seria essa uma explicação bastante razoável para os sapatos... se eu não continuasse me sentindo do mesmo jeito sem eles. De pés descalços sobre o tapete, eu sentia ainda a mesma coisa, a mesma sensação de conforto e satisfação semi-secreta. Era como se eu tivesse transcendido o lugar-comum que representam os sapatos mágicos de rubi, como se eu tivesse ido além do que podem representar ou despertar - em mim e nos outros.

Eu não precisava dos sapatos para me sentir feliz e naturalmente não preciso deles agora para tal. Mas sua aquisição me deu um estalo sobre quem eu sou e sobre o que ando fazendo da minha vida, sobre quem estou me tornando, sobre o quanto tenho mudado nos últimos tempos. Creio que, sinceramente, pela primeira vez, mudar me parece bom, acho que principalmente por que isso tem se dado de modo natural, no dia-a-dia e não por conta de grandes cataclismas emocionais.

Mais uma vez, tudo passou por análise. Graças a Deus não trabalho em laboratório, pois era bem capaz de querer esmiuçar tudo em microscópio e tubo de ensaio (imagino o banda tocando). Sendo o que sou, me contenho e contento em simplesmente ser e sentir, analisando todas as coisas da vida, ou pelo menos tudo o que está ao meu alcance. Não tenho pretensão de ir mais longe e já não me chateio por não entender tudo o que queria.

Quando me viram no núcleo fraternal, não foi nos sapatos que primeiro repararam, foi no meu novo tom de voz, no meu ânimo redobrado, no meu riso desprendido. E eu mesma só reparei nisso tudo por causa de um mísero par de sapatos vermelhos de salto alto, sapatos esses dos quais eu nem preciso de fato, pois carrego comigo, dentro de mim, tudo aquilo de que preciso.

22 de mar de 2011

Do bedelho

Ele e ela estão numa lanchonete conversando. Ela o escuta atentamente até que ele começa:

- blá blá blá você tem que fazer isso blá blá blá blá não pode perder essa oportunidade blá blá blá blá e você também tem que fazer isso agora blá blá o momento é agora blá blá se eu fosse você faria isso e isso blá blá blá.

Irritada com ele e consigo mesma, ela pagou o café e foi embora. Era com a melhor das intenções que ele metia o bedelho, mas isso não tornava o fato menos desagradável. Havia coisas que pareciam simplesmente injustificáveis - e o segredo estava no tom das palavras proferidas, não na sua intenção.

21 de mar de 2011

Clara e as leis de atração

Já não tinha nada a perder? Seria por vaidade ou traquinagem mesmo? Clara preparou uma festa em seu apartamento, chamou alguns amigos e três dos pretensos pretendentes. Alguém tinha lhe dito que era preciso dar uma chance ao amor blá blá blá. Convidou os três então. Apesar de muito diferentes entre si, os três eram inteligentes, charmosos e agradáveis. Cada um ao seu modo, naturalmente. Ela vinha papeando com os três na intenção de que algo estalasse. Mas nada tinha estado ainda. E tinha algum resquício de esperança que sentisse alguma coisa por um dos três naquela noite. Mas não sentiu. Nada estalou. Sem qualquer sinal de atração ou química. Os três não passavam de bons amigos, não tinha como mudar aquilo. Eram aquelas coisas permanentes. Eles voltaram para casa um tanto decepcionados. Já Clara, um tanto perplexa e feliz, teve de novo aquela sensação já conhecida de que algo estava por vir.

20 de mar de 2011

Por que algumas palavras são longas e outras curtas?

Peter Dizikes - MIT

Eficiência da linguagem

Por que algumas palavras são curtas e outras são longas?
Durante décadas, a teoria mais aceita considerou que as palavras usadas com frequência são curtas a fim de tornar a linguagem eficiente: segundo essa visão, não seria econômico se o artigo "o" fosse tão longo quanto "fenomenologia".
Mas agora uma equipe de cientistas do MIT desenvolveu uma teoria alternativa, com base em novas pesquisas: segundo eles, o comprimento de uma palavra reflete a quantidade de informação que ela contém.
"Pode parecer surpreendente, mas o comprimento das palavras pode ser melhor previsto pelo conteúdo da informação do que pela frequência," afirma Steven Piantadosi, principal autor de um artigo sobre o assunto que avaliou o uso de palavras em 11 idiomas.

Dependência entre as palavras

A noção de que a frequência de uso gera palavras mais curtas resulta dos trabalhos publicados por George Zipf, nos anos 1930.
Segundo Piantadosi, a ideia de Zipf tem um apelo intuitivo, mas oferece apenas uma explicação limitada para o comprimento das palavras.
"Faz sentido que, se você falar algo repetidamente, então você vai querer uma palavra mais curta," diz Piantadosi. "Mas há uma história de comunicação mais refinada para ser contada do que isso. A frequência não leva em conta as dependências entre as palavras."
Ou seja, muitas palavras geralmente aparecem em sequências previsíveis, na companhia de outras palavras.
Palavras curtas não são necessariamente muito frequentes.

Informação nas palavras

Mais frequentemente, os pesquisadores descobriram, palavras curtas não contêm muita informação por si mesmas, mas aparecem em sequências de outras palavras familiares que, como um todo, transmitem a informação.
Por sua vez, este agrupamento de palavras curtas ajuda a "suavizar" o fluxo de informações na linguagem através da formação de cadeias de pacotes de dimensões semelhantes, o que por si só gera uma eficiência - ainda que não exatamente a eficiência imaginada por Zipf.
"Se você considerar que as pessoas devem estar tentando se comunicar de forma eficiente, você chega a essa taxa uniforme," acrescenta Piantadosi; seja através de agregados de palavras mais curtas ou por meio de palavras individuais mais longas já carregando mais informação, a linguagem tende a transmitir informações a taxas consistentes.

Comentário: Não sei se concordo com tudo o que foi dito, mas é, sem dúvida, algo interessante para se pensar.

19 de mar de 2011

Verbalizando

Tem coisas que a gente simplesmente sabe, nem precisaria ouvir. Coisas que simplesmente se sente no íntimo. Entretanto, ouvir "eu te amo" é sempre algo inesperado e sempre me faz feliz. Eu ainda estranho a verbalização das emoções alheias neste mundo de hoje, em que ninguém quer expor o que se sente - e se expor, consequentemente.

18 de mar de 2011

O que se faz nos sonhos além de dormir

Semana passada, sonhei com duas pessoas com quem não costumo sonhar:


- Sonhei com você!

A primeira coisa que se costuma é perguntar:

- E como foi?

Assim ambas fizeram e percebi que normalmente faço sempre as mesmas coisas nos sonhos:

- Conversávamos.

Há alguns milhares de anos, a Fisioterapeuta, antes de ser fisioterapeuta, disse que conversar era uma das coisas que eu mais gostava de fazer. E hoje vejo que ela acertou. Quando adolescente, tinha os sonhos mais mirabolantes e deliciosos. Entretanto, fugir era uma constante e creio que estivesse ligado ao momento pelo qual passava, embora eu não quisesse de fato fugir, mas isso renderia qualquer análise de sonhos na qual não estou interessada.

Hoje o que mais faço nos sonhos é caminhar e conversar, provavelmente porque são duas das coisas que mais gosto de fazer. Já houve casos de ter sonhado com um pretendente em potencial, dizer isso a ele e ouvir o seguinte comentário cheio de malícia:

- E o que a gente estava fazendo?

E eu respondia feliz: 

- Conversávamos.

Acho que toda a "mirabolância" talvez tenha ficado relegada a um segundo plano, ou talvez eu só a tenha canalizado para outro campo. Acho que ela reina enquanto estou acordada agora. Meus sonhos são, em grande parte, bastante prosaicos, sem maiores arroubos. Mas, nem por isso, menos deliciosos. Seja como for, é estranho reproduzir algo que já faço normalmente no dia-a-dia. Os sonhos não seriam um espaço de libertação? Bom, talvez a forma que eu tenha de me libertar seja exatamente conversando e caminhando - coisas que, felizmente, faço diariamente.

Ouvindo Don't follow (Alice in chains)

17 de mar de 2011

Um copo de alucinação, por favor

Sempre me chamou muito a atenção o elemento alucinógeno de diversas propagandas de refrigerante. O nome da companha da propaganda abaixo é "Abra a felicidade". Felicidade engarrafada e vendida por aí - sounds good. É uma realidade paralela regada à... corante? Será que é o excesso de corante que faz pessoas levarem a sério? Ou que faz os publicitários terem essas idéias?

16 de mar de 2011

Mas você não quer casar?

Estávamos tomando um café: a Artista, a Sarcástica e eu. Comentei com elas onde gostaria de morar e como gostaria que as coisas fossem dali a um curto espaço de tempo.

- Mas você não quer casar? Por que sair da casa dos seus pais para morar sozinha? - a Artista perguntou.

Ela tem pouco menos do que o dobro da minha idade e é uma pessoa extremamente agradável, mas não consegue entender certas coisas. Então expliquei:

- Não é isso. Me dou muito bem com a minha família, mas está chegando aquele momento de seguir o próprio rumo, sabe?

Não, ela não sabia nem entendeu. Me senti no século dezoito, tendo que passar da tutela da família para a do marido.

- Deve ser essa geração de vocês - ela respondeu e continuou - Mas as minhas duas filhas nem sonham em sair de casa.

Ela tem filhas da minha idade. Atalhei:

- Mesmo porque, se eu for esperar arranjar marido para casar, olha, talvez em nem saia de casa...

- Mas você não quer casar?

- Quero achar alguém legal. Acho que a maioria das pessoas quer isso, né? Casar, se rolar, é consequencia e não objetivo mor. É complicado tentar planejar coisas que não dependem só de você.

A Sarcástica veio em meu socorro:

- Artista, você casou cedo, né?

- Isso, com dezesseis anos.

- E funcionou, adiantou alguma coisa?

A Artista está divorciada do marido há uns dez anos ou mais.

- É, não muito - a Artista respondeu triste e pensativa.

A Sarcástica continuou:

- Chega um momento em que todo mundo tem que tocar a vida sim. Alguns demoram mais, outros menos, mas essa hora chega para todos. Ter sua própria vida e seu próprio canto é uma delícia. E é fundamental. Passar dos trinta na casa dos mais só em casos extremos, né? Essa experiência que eu estou falando é única, essa coisa de não depender de ninguém. E também não deixar que homem dependa de você financeiramente, não sustentar marido. E sobre casamento... Olha, se você fica nessas de esperar marido na casa dos pais, que chance vai ter de experimentar e viver certas coisas? O que tiver que acontecer vai acontecer e pronto. Eu acho que você, Frau, faz muito bem com os seus planos.

E me dei conta que as duas eram divorciadas, assim como uma boa parte das pessoas com quem convivo. E fico chocada com essa cobrança que ainda existe por parte das pessoas para que a gente se case. Cobrança de homens. Mas principalmente de mulheres, pois já ouvi o discurso da Artista em garotas da minha idade. Por aí se vê que é uma questão de visão de mundo e não de idade.

15 de mar de 2011

A velha e as velas

Para aqueles que fazem parte da minha vida

(o nome desse post ficou parecendo nome de fábula ou é impressão minha?)

Hoje assopro mais uma velinha, mas não me senti mais velha. Bem pelo contrário: me sinto mais viva, dinâmica e ativa. Trabalhei de manhã, de tarde e de noite. Envelheço na cidade, como bem citou a Nanda. Me disseram que eu deveria ter tirado o dia de folga:

- É seu aniversário!

Mas sou desobediente e fui trabalhar. Nada melhor do que ser (e se sentir) útil. Trabalhei com a paixão costumeira, mas decidida a não deixar que nada me perturbasse - e assim foi feito, naturalmente, porque assim decidi. O jogo de cintura tem vindo com a idade ou com a experiência? Um dia perfeito dentro das suas inúmeras possibilidades. Almocei muito bem acompanhada num ótimo restaurante, rápido passeio com direito a sorvete de açaí. Oba!

E os planos de comemoração nos três núcleos(-base) da minha existência - o familiar, o fraternal e o pedagógico? A despeito de algumas mudanças, serão gloriosos dentro de sua simplicidade. Da minha simplicidade, como têm sido esses vinte e poucos anos. Gloriosos como puderam ser. A maneira deles, a minha maneira.

Fui surpreendida pelas mais doces mensagens e mais doces doces. Engraçado como a felicidade está nos pequenos carinhos, lembretes, bilhetes e em caixinhas de bis sabor limão. Obrigada pelos e-mails, ligações, SMSs, abraços (!!!)... Tudo mesmo!

Hoje, depois do dia perfeito, e de estar com muitas pessoas de quem gosto (e de perceber que verei muito em breve outras igualmente amadas), senti com a simplicidade que me compete que estou no caminho certo.

E faço meus alguns versos de Alberto Caeiro que sempre me acompanham:

"Hoje sei a verdade e sou feliz"

14 de mar de 2011

Réquiem para um sonho: causa e efeito

Réquiem: espécie de prece ou missa composta para um funeral.

Eu estava enrolando para ver o filme, porque sabia que seria perturbador. Entrei na fase dos dramas. Se por um lado, minha vida deixou de ser um drama,  por outro, tenho aberto mais a minha cabeça e abraçado os filmes de gênero drama com algum carinho. Claro que estou falando de tipos de drama bem diferentes: o drama pequeno da vida privada e o drama social de um filme como Réquiem para um sonho (2000).

Nos extras, um dos atores definiu o filme como uma "viagem ao inferno" e acho que é isso mesmo.

Uma coisa que achei muito interessante é que Réquiem não peca pelos excessos: poderia ser um filme moralista, condenando o uso de drogas, ou poderia ser uma apologia ao seu uso. Longe disso, ele se compromete a mostrar uma relação de causa e efeito, que também poderia ser definido por:

Para toda ação, há uma reação.

E isso vale para todas as atitudes que as personagens tomam, destrutivas ou não, conscientes ou não.  É mostrado como as pessoas se sentem bem com o uso da heroína. Mas também mostra o que vem depois e até onde se é capaz de ir por mais uma dose, o preço que as pessoas se dispõe a pagar. Não estou falando de dinheiro, naturalmente. De repente, não há quaisquer referências e tudo é válido, permitido, para que se alcance objetivos não alcançáveis.

Réquiem é um filme sobre pessoas que se perdem umas das outras  e de si mesmas e sobre amor que se esfacela, esfarela, não resiste, por não poder coexistir com uma vontade maior de satisfazer um vazio que não pode ser preenchido. Alguém me disse certa vez que todo ser humano tem um vazio que não pode ser preenchido e acredito nisso, mas também acho que é isso o que nos motiva a seguir em frente e correr atrás dos nossos sonhos. Harry, Tyrone, Marion e Sara tinham os seus sonhos e correram atrás deles, mas a que preço? De que ferramentas de utilizaram? Mais uma vez, é o "como" e não o "o quê". É o processo e não o resultado.

É um filme forte e intenso sobre caminhos sem volta que vale muitíssimo a pena ser visto. Vale também pela belíssima  trilha sonora de Clint Mansell.


Réquiem é de Darren Aronofsky, o mesmo de Cisne negro (2010), por aí, dá para sentir o drama, não? Mas gostei mais de Réquiem, me soou muito mais... honesto. Mas as ilusões, a perturbação e as obsessões permanecem, embora em diferente ambiente, escala e difusão.


Buraco Negro

13 de mar de 2011

Maurício+Malu: Isso

(atendendo a pedidos do que canta em silêncio)

Malu limpava o balcão frio da cozinha fria. Era verão? Nem parecia. Os últimos acontecimentos pareciam ter roubado os ares de verão, as chuvas e a poeira que morria no fim da tarde. Sombria, Malu limpava o balcão já limpo, muito limpo. Que insistência naquilo, naquelas coisas que não davam em nada. Tudo planta podada antes de dar botão.

Ela berrou qualquer coisa da cozinha. Seu grito ecoou pela casa.

- Que porcaria de desinfetante!

Maurício logo chegou, impaciente.

- Que que você tá gritando?

- Por que você comprou esse lixo de desinfetante de maçã-verde? A cozinha fica cheirando a banheiro!

- Por quê, Malu? De onde raios você tirou isso?

- Porque o desinfetante de privada é de maçã-verde!

- E mancha todo o esmalte! Por que você não compra o com cloro?

- E quem é você para me dizer como cuidar da minha casa?

- Nossa casa, você quer dizer!

- Então talvez você devesse procurar outra casa e outra mulher!

Maurício, já muito alterado, hesitou, algo dentro de si ordenou que hesitasse e baixasse o tom:

- E por que eu ia querer isso, Malu?

Ela parecia profundamente magoada, ferida. Despedaçada era a palavra. Seus olhos eram duas luas frias. Escorreu pela parede e se sentou no chão:

- Porque eu... não posso.

Maurício se a ajoelhou e a abraçou, para que ela não começasse a chorar. Mas foi inevitável. O choro viria  de qualquer modo. Ela soluçava descompassadamente e ele não sabia o que dizer. Não tinha nada que pudesse dizer que amenizasse a sua dor, uma dor partilhada, que ele disfarçava e escondia dentro do bolsos do paletó. E ficaram os dois calados, abraçados.

Maurício tinha sido sempre visto como um homem fraco. Seguiria sempre tudo o que Malu falava, cegamente, como todo mundo dizia? Não se importava com a opinião alheia, mas talvez fosse fraco mesmo. Apagava-se para que ela brilhasse, um amigo tinha dito. Tanto fazia naquele momento. Reconheceu-se fraco, mas na sua fraqueza, na sua fragilidade, encontrou forças para segurar Malu em seus braços . Por amor. E por amor deixar as suas próprias lágrimas escorrerem, msiturando-se com as dela. Na sua fraqueza encontrou forças para não deixar que ela afundasse. Sim, ela, Malu, que se gabava de ser a extremamente forte.

- Tudo vai ficar bem - sussurrou ele em seu ouvido.

Só fazia uma semana que ela tinha sabido que não poderia ter filhos.

Ouvindo Stand by me (Ben E. King)

12 de mar de 2011

Meu nome não é Helena

Nunca fui de curtir novela, muito menos da Globo, muito menos das oito - que sempre passa às nove, vai vendo o grau de precisão.

Mas se tem uma coisa que é pior do que novela da Globo em horário nobre, é novela da Globo em horário nobre do Manuel Carlos. Sempre a mesma receeita infalível e enfadonha: uma heroína Helena sonsa (igual a todas as demais Helenas), overdose de MPB e as maravilhosas praias do Rio, retratada como uma cidade sem quaisquer tipos de problemas. Abracemos o Rio fictício então.

Mas pior, muito pior do que tudo isso, foi ter que ouvir o Manuel Carlos dizendo que ele entende de mulher melhor do que as própriass mulheres. Nem nós nos entendemos às vezes. Quanta prepotência! Vai ser petulante assim em... Ipanema, mas na Ipanema fictícia. Conseguiu a minha antipatia eterna e olha que isso é para poucos...

11 de mar de 2011

Cinco observações [inofensivas] sobre o sexo masculino

1) Homem é tudo igual: não, não é. Nem as coisas feitas em escala industrial, em linhas de montagem, são todas iguais. O que dirá pessoas oriundas de diferentes lugares com educação e com experiências distintas. Homem é tudo igual parece uma daquelas desculpas/ chavões para quem acaba sempre escolhendo caras "não muito legais", para usar um eufemismo. Se pensarmos deste modo, poderemos dizer que Mulher é tudo igual, tendo, assim, outra mentira fácil fruto do senso comum. Se as pessoas fossem todas iguais, haveria fórmulas de convivência e todos seriam bem sucedidos (fossem quais fossem seus intentos). Não haveria livros de auto-ajuda, já que as receitas seriam prontas e socialmente conhecidas. E não haveria esse blog.

2) Homem não presta: falta de caráter não é exclusividade do sexo masculino, mas talvez as mulheres verbalizem o que as incomoda com mais frequencia. Uma amiga me falou algo interessante: às vezes falamos que um homem não presta por ele não pensar de modo diverso do meu, mas, outras vezes, falamos isso de alguém sem caráter. Por exemplo, se um sujeito é pró-relacionamentos abertos, enquanto eu não partilho disso, isso não quer dizer que ele não preste. Entretanto, caso algum descontentamento alheio quanto ao meu não interesse por relacionamentos abertos gere uma mensagem on-line baixa e depreciativa pelas minhas costas, bom, aí o sujeito não presta mesmo.

3) O equilíbrio da liberdade: Um negócio bem difícil de administrar: se você fica muito por perto o rapaz se sente sufocado, se você dá bastante espaço, o que se sente é carência. Acho bastante difícil dosar e acertar na satisfação da vontade alheia.

4) Os cafajestes são os mais queridos: não sei em qual esfera do cosmo. Entretanto, talvez seja melhor dizer que há mulheres que adoram sim ser maltratadas, adoram um malandro, um cafajeste. Não sei falar em porcentagem, mas posso dizer que se tem aquelas que gostam, tem as que desprezam. E uma boa parte das mulheres com quem convivo desaprova - veementemente.

5) [Falta de] Comunicação: falar muito não quer dizer falar coisas relevantes, já adianto da parte feminina, pois, muitas vezes, nós mulheres achamos que só porque falamos muito, estamos nos comunicando. Doce ilusão. Todavia, eu ainda sinto uma grande dificuldade de conversar com alguns homens. Parece haver um bloqueio nato. Alguns só se abrem e falam do que sentem quando sob efeito de alcool. Ou de sono. E quando me refiro a "falar do que sente", não estou nem entrando em grandes questões existenciais, estou falando das simples coisas da vida. Quando o assunto é "colocar pra fora", o humor e o riso podem  ser  (e são) usados como artimanhas ferramentas a fim de desviar a atenção de quem se interessa. Entendo que é preciso alguma proteção, mas se o muro é muito alto, será que alguém consegue pular? Entendo que se abrir pode ser arriscado, mas como fazer parte da vida alheia se não se compartilha o mínimo? Bom, isso se se quiser fazer parte, mas isso já são outros quinhentos...

Comentários masculinos e maiores esclarecimentos são bem vindos

10 de mar de 2011

Quando os pandas não conseguem ouvir: "não"

Não é porque ele é adorável que nunca vai ouvir um "não", seja de quem for. Quanto mais cedo aprendermos isso, melhor. Ou então podemos tentar uma abordagem mais bélica, digo, incisiva.

Vigi(li)a

Eu conhecia aquele solo de violão de algum lugar. Qualquer lugar. Outra vida. Ou seria esta mesma? Lembrei de você e foi tão intenso que mal pude respirar. E quis guardar o ar, como se o fato de o termos divido signfiicasse alguma coisa agora. Nada, simplesmente nada. Mas não me importei, pois sua lembrança confortava. Intensa como o beijo nunca trocado, como a expectativa mantida em suspenso, como seu olhar que engaiola e aprisiona. Mas que quis eu da vida? Ser livre. E, para isso, para ser pássaro dono de suas asas, tive que abdicar desse olhar de vertigem, desse olhar que me quer engolfada. Não, não flutuante. Mas submersa e submissa.

Ouvindo Close to you (Carpenters)

9 de mar de 2011

Para mim?

E quando vi, passou mais um ano. Vejo o que aprendi, o quanto te ensinei. E já estou com os preparativos certinhos, tudo encaminhado. Adoro celebrar aniversário. E, este ano, meus vinte e poucos anos serão celebrados nos três núcleos mais importantes, com as pessoas mais importantes. Sim, porque celebrar a vida é fundamental e aniversário, mais ainda, e três vezes, mais ainda. E lá vamos nós na contagem regressiva! Enquanto isso, todo dia é dia de comemorar meus desaniversários...

Elba e Ney




Quando era pequena, achava que Neylatorraca e Elbarramalho fossem escritos juntos: nome e sobrenome. Na verdade, hoje acho que deveriam: ficam tão sonoros.

8 de mar de 2011

Idéias inspiradoras

"Coma o maldito bolo de chocolate. Molhe o cabelo. Ame alguém. Dance naquelas poças enlameadas. Dê uma bronca em alguém. Faça um desenho com giz de cera como se você ainda tivesse seis anos de idade e dê para alguém importante. Tire uma soneca. Saia de férias. Dê uma estrela. Faça sua própria receita. Dance como se ninguém estivesse vendo. Pinte cada unha de uma cor diferente. Tome um banho de espuma. Ria de uma piada brega. Suba naquela mesa e dance. Colha morangos. Faça uma caminhada. Cultive um jardim. Faça uma camiseta feia a use-a por um dia todo. Aprenda uma língua nova. Escreva uma música. Namore alguém de  quem você normalmente não correria atrás. Faça um scrapbook. Faça um piquenique. Relaxe ao sol. Faça seu próprio vídeo caseiro. Beije o não-beijável. Abrace o não-abraçável. Ame o não-amável. E desfrute de vida ao máximo. Então, no fim, você não terá arrependimentos, tristezas, desapontamentos".

Isso me tocou quando li. Muito foi pela simplicidade do que é dito. Muito pela constatação de que já consegui realizar muita coisa que é sugerida acima. É a sensação de uma vida completa.

Leia o original em inglês em Chasing vivid dreams.

Eu e o Carnaval


O carro alegórico seria uma alegoria exatamente do quê? Se tem uma coisa que eu curto mesmo no Carnaval são os tigres e águias abundantes nos carros alegóricos, animais estes símbolos da rica fauna brasileira. Mas aindo passo um Carnaval em Olinda e roubo um daqueles lindos bonecos para mim.

7 de mar de 2011

Dollynho não é meu amiguinho

 
Queria muito saber qual é a empresa publicitária responsável pelao marketing da Dolly. Acho as propagandas muito ruins desde... desde sempre! Seja dia das Mães, dos Pais, Páscoa, Natal... Nada muda, incluindo a [baixa] qualidade: roteiro, imagem, animação, jingle. Agora se tem uma coisa pior do que criar as  já citadas propagandas, é permitir que vão ao ar. E quem faz isso é a Dolly.

Play the game

Ontem morreu mais um romântico. Morte matada, não morte morrida. Não o último, mas mais um dos que não consegue compreender ou apreender uma realidade dura e infeliz. Parecia estar tudo errado, tudo ao contrário. Negócio resolvido: não quer mais brincar. Não daquele jeito. Quanto mais o tempo passa, mais vejo isso acontecer. Será que sou a única a querer brincar desse jeito ainda? Mas será que eu ainda quero mesmo e levo jeito? Ele disse que sim.

Ouvindo Not the drinking (Lauren Pritchard)

6 de mar de 2011

Dando uma segunda chance ao amante

Aconteceu num desses dias à noite. Eu estava deitada, já de pijamas, no sofá e ele, impassível. Tinha me prometido, não o mundo, mas alguma coisa. Eles sempre prometem. E eu ainda não tinha visto nada do prometido. Nada do que os outros tinham dito que ele teria a me oferecer.

Levantei e troquei o vinil. Repassava toda a coletânea do Pink Floyd e, consequentemente, revivia filmes e pessoas. Wish you were here foi o ponto alto, naturalmente.

E ele me observava, insondável. Fechado. Tinha aquele mistério que eu tanto desprezava. Como tinha de ser, dei o primeiro passo e me aproximei dele. Toquei levemente sua superfície e num suspiro, abri o livro, suas páginas incertas, seus caminhos desconhecidos. Caminhos por onde nos leva a Literatura.

Eu tinha resolvido dar uma segunda chance a'O Amante de Marguerite Duras. Acredito que nunca devemos desistir dos livros que tentamos ler e não conseguimos. Graças a isso, consegui ler 100 anos de solidão, o que muito me contenta. Mas O Amante era outra história. A história é interessante, a linguagem me agrada, mas... por que será que não consigo ler? Sinto que é o ritmo - lento? Não, não é isso. A caminho de Swan tem um ritmo mais lento e isso não me incomodou, pelo contrário, faz parte do atrativo do livro e tem o seu encanto. Então por que não há química entre nós?

Finalmente a adolescente encontrou o seu amante, o que deu a história uma nova cor, um novo fôlego, um novo vigor. Ele se mostrava interessante novamente. Senti que ainda me prometia mais um pouco, mas não dei muita atenção. As promessas têm sido bombons que quando desembrulhados não revelam chocolate, mas sim, pequenos pedregulhos. 

Fiz bem de não levá-lo a sério, pois logo se tornou enfadonho novamente. Sua fala repetitiva devia esconder algo. Mas é o estilo da escritora. Sei que é um livro importante e premiado, reconheço que é um livro muiro  bom, mas não consigo seguir, não consigo deixar que flua e não sei se devo tomá-lo como um desafio pessoal. Me deitei ao lado dele e adormecemos ao som da agulha da vitrola.

Deverei dar uma terceira chance ao amante?

Ouvindo Slow (Rumer)

5 de mar de 2011

A credibilidade de Sandy



Não tem jeito, a Sandy não tem credibilidade para fazer propaganda de uma cerveja chamada Devassa - e não convence na propaganda. Ou então vou achar que a cerveja não oferece toda a "devassidão" prometida. Aí a credibilidade da cerveja fica comprometida...

4 de mar de 2011

É Carnaval!

Pierrô, Sérgio Lopes
 
Rubinho está em frente ao espelho. Não sabe por onde começar a pintura. Quer ser outro, outra alma, outro rosto, outra cor, outra história. Como é o rosto de um Pierrô? Maldita hora em que foi escolher aquela fantasia - sugestão do irmão. Na ausência de melhor idéia - ausência de ciratividade - acatou a sugestão como ordem direta e imediata.

Os mais velhos já estão saindo para  rua, da janela se ouvem as marchinhas alegres e as pessoas animadas. Ansioso, Rubinho pede ajuda, mas o irmão tem pressa. Arlequim diz que precisa descer, seu bloco de rua já está saindo. Diz que vai chamar uma amiga para ajudar o irmão.

Todos já parecem ébrios pelo clima e Rubinho sem saber como criar a sua nova identidade. Por onde começar? Angustiado: é a primeira vez que sai no Bloco dos Corações Partidos. Nome piegas a beça, mas a diversão é grantida, garantiu o irmão.

- Rubinho?

Uma voz o chama e ele se vira: uma moça já fantasiada está junto a porta, vestido longo de época, com uma touca numa das mãos.

- Vim te ajudar a terminar de se arrumar. Todo mundo está lá embaixo, só falta você!
Voz vibrante que ecoa pelo quarto, janela a fora e ouvidos a dentro. Clara entra ligeira no quarto abafado, a despeito das janelas abertas. Um calor de fevereiro e março, sem chuva e sem a secura em contrapartida.

- O que é que falta? - ela pergunta se aproximando e não obtendo resposta, responde ela mesma - É a pintura, não é?

Boneco surdo-mudo acena suavemente com a cabeça. Um pequeno e frágil fantoche? Talvez. Ela some para dentro do banheiro veloz e da lá logo sai com um pequeno estojo. Passos firmes se aproximam dele, resolutamente. De repente, ela está próxima, muito próxima. Um cheiro quente e morno de sabonete inflama o quarto, janela a fora, narinas a dentro. Ela tem uns olhos antigos e despretenciosos, que o encaram com uma atenção superior e irritantemente maternal. 

Clara segura o queixo de Rubinho e em poucos e longos instantes, traça nele a alma do Pierrô. Está próxima, muito próxima e o olha com um cuidado extremo. E ele olha também, olha seus traços diferentes, outra alma traçada, familiar em alguns detalhes. Já a conhecia de outros carnavais e como adivinhando tal pensamento:

- Você não deve lembrar de mim, mas a gente já se conhece. Faz muito tempo, você era muito pequeno...

Ela tão... tão... mulher. E ele? No auge de suas espinhas, de seu erotismo reprimido, de sua liberdade podada, dos seu sonhos abafados, vontade doida de virar o mundo de cabeça para baixo... Como o quarto - insuportavelmente abafado, a despeito da brisa suave que entra pela janela e faz os cabelos de Clara suspirarem suavemente. Tudo de ponta-cabeça.

Clara finaliza a pintura com a lágrima no rosto. Rubinho quer lágrima de verdade para lavar o rosto e, de cara lavada, pedir que pinte seu rosto de novo. Mas só lhe resta:

- E você? Do que está fantasiada? - rascunha.

- Hoje sou a Colombina - ela sorri triunfal, puxando-o rapidamente quarto a fora e vida a dentro.

Ouvindo A banda (Chico Buarque)

3 de mar de 2011

Relevância pedagógica

Ele pediu para sair: ia devolver a camiseta do uniforme, pega de empréstimo por ele ter vindo com outra roupa. Deixei que fosse, já tinha terminado a atividade. Logo voltou, ainda com a camiseta nas mãos:

- A coordenadora disse que posso ficar com ela.

Sorri e pedi que ele se sentasse.

- Mas, professora, como eu dobro a camiseta?

Peguei-a, estendi sobre uma carteira e fui explicando verbalmente e mostrando como se fazia. Passo-a-passo, com o maior cuidado para que ela não amassasse.

Ao terminar a tarefa, percebo estarem mais uns sete alunos assistindo a performance vestuária,  com a maior atenção e concentração do mundo.

O que te afeta?

Afeto me afeta. Ou a falta dele. De resto, o tanto faz não consegue dar conta.

2 de mar de 2011

"Me leva, Senhor!"

Fui visitá-lo conforme o combinado. Conforme o esperado, ele atendeu a porta com desânimo:

- Tudo bem? - perguntei sorridente.

- Ah tem dias que não sei como aguento... - disse sem me olhar no rosto.

Entramos e, como esperado, ele começou a se lamentar. Incansavelmente. As mesmas queixas de sempre e, eu, as mesmas réplicas - incontestáveis. Até que veio a pérola costumeira:
- Me leve para junto de ti, Senhor! Já estou velho demais, já fiz tudo o que tinha para fazer!

Olhei para ele primeiro sem grande emoção. Depois, me enchi de um não-sei-o-quê (que não era aborrecimento) e respondi com ternura e firmeza:

- O senhor acha que está velho demais, mas só vai embora quando Deus quiser. Enquanto isso não acontece, é melhor fazer alguma coisa. Vai que o senhor dura mais dez anos?

- Talvez...

- Vai que Deus decide amanhã que já eu fiz tudo o que precisava e me leva embora? E sou jovem! Só Deus sabe...

Ele ficou me olhando pensativamente. Passou a mão pelo rosto moreno com tranquilidade agora. Continuei:

- Já disse como andam as coisas para mim, tudo certo, tudo mais do que encaminhado. Mas se eu morrer amanhã? Aí foi, ué? O importante é que hoje eu faço o que posso e é assim desde sempre. Não sei quanto tempo vou ter para fazer as coisas, mas sei aproveitar muito bem o tempo que tenho. E o senhor deveria fazer o mesmo.
Ele resmungou mais alguma coisa, mas acabou concordando comigo. Umm sorriso de "você tem razão". Deixei-o naquela mesma tarde com um ar pensativo e mais alegre. Me fez feliz aquilo. E me fez feliz perceber que realmente acredito em tudo aquilo o que disse e que faço a diferença, dentro das minhas humildes possibilidades.

Ouvindo Pra você guardei o amor (Nando Reis)

1 de mar de 2011

O que eu mais quero

O que eu mais quero hoje é diferente do que eu quis ontem. Algumas coisas se mantiveram, mas outras foram varridas. Vaso de flor em tempestade. Poeira que não assenta expulsa à vassouradas. O que mais me espanta são as três coisas que passei a querer muito há quase um ano.

Aí revi essas três coisas que quero tanto. São segredos, de fato. Aprendi com destreza impar a arte de ouvir mais e falar menos, por isso são segredos. Momentaneamente distantes de mim, mas uma hora eu consigo, como tudo na vida. Não tenho pressa, porque a pressa é para quem come cru. E eu gosto de caçarolas.

Mas quero muito. Um querer suave e descompromissado. Sem tempo. Talvez eu já tenha tudo o que poderia querer para a minha idade (e sem dúvida mais do que imaginava), mas sempre vou querer mais. Sina de ser humano. Mas sublime, margeio os caminhos alheios, flutuante e feliz em minhas escolhas. Com toda a leveza que me permito - toda. Quero muito e quero mais, meus três desejos inconsequentes.

Mas eles me espantam, me desconcertam. E então me pergunto: o que será que vou querer até o meu próximo aniversário? Será algo tão inusitado ou mais do que são meus três pedidos de agora?

Ouvindo Vambora (Adriana Calcanhoto)

Represado

A raiva como um rio represado é bastante perigosa: basta passar um tanto da sua capacidade e a represa transborda estoura rompe destrói tudo ao redor, tudo o que vê pela frente. Que fazer com esse rio caudaloso que se alimenta da chuva e ainda tem fome das margens? Deixar fluir aos poucos antes que devore o que estiver no caminho.