6 de mar de 2011

Dando uma segunda chance ao amante

Aconteceu num desses dias à noite. Eu estava deitada, já de pijamas, no sofá e ele, impassível. Tinha me prometido, não o mundo, mas alguma coisa. Eles sempre prometem. E eu ainda não tinha visto nada do prometido. Nada do que os outros tinham dito que ele teria a me oferecer.

Levantei e troquei o vinil. Repassava toda a coletânea do Pink Floyd e, consequentemente, revivia filmes e pessoas. Wish you were here foi o ponto alto, naturalmente.

E ele me observava, insondável. Fechado. Tinha aquele mistério que eu tanto desprezava. Como tinha de ser, dei o primeiro passo e me aproximei dele. Toquei levemente sua superfície e num suspiro, abri o livro, suas páginas incertas, seus caminhos desconhecidos. Caminhos por onde nos leva a Literatura.

Eu tinha resolvido dar uma segunda chance a'O Amante de Marguerite Duras. Acredito que nunca devemos desistir dos livros que tentamos ler e não conseguimos. Graças a isso, consegui ler 100 anos de solidão, o que muito me contenta. Mas O Amante era outra história. A história é interessante, a linguagem me agrada, mas... por que será que não consigo ler? Sinto que é o ritmo - lento? Não, não é isso. A caminho de Swan tem um ritmo mais lento e isso não me incomodou, pelo contrário, faz parte do atrativo do livro e tem o seu encanto. Então por que não há química entre nós?

Finalmente a adolescente encontrou o seu amante, o que deu a história uma nova cor, um novo fôlego, um novo vigor. Ele se mostrava interessante novamente. Senti que ainda me prometia mais um pouco, mas não dei muita atenção. As promessas têm sido bombons que quando desembrulhados não revelam chocolate, mas sim, pequenos pedregulhos. 

Fiz bem de não levá-lo a sério, pois logo se tornou enfadonho novamente. Sua fala repetitiva devia esconder algo. Mas é o estilo da escritora. Sei que é um livro importante e premiado, reconheço que é um livro muiro  bom, mas não consigo seguir, não consigo deixar que flua e não sei se devo tomá-lo como um desafio pessoal. Me deitei ao lado dele e adormecemos ao som da agulha da vitrola.

Deverei dar uma terceira chance ao amante?

Ouvindo Slow (Rumer)

Um comentário:

Sílvia Hudaba disse...

às vezes os livros exigem tempo, horas, dias, meses ou anos de pausa antes que cheguemos ao seu fim.
Outras, não conheceremos o final e isso não vai nos faltar.