30 de mar de 2011

Quero ser jogador de futebol!

Ainda isso me chocava, essa resposta automática que os meninos e adolescentes dão quando perguntados sobre o que querem ser quando crescer. Mas já ouvi coisa bem pior. 

Antes eu pensava sobre a falta de perspectiva diante do futuro que eles têm, pensava que isso ocorria devido a uma alienação do resto do munod, do resto das coisas que existiam. Em parte sim, afinal, jogadores de futebol ganham milhões para fazer uma coisa que ainda é paixão nacional, prazer de fim de semana, esporte de sedentário de escritório. E, para isso, eles não têm que estudar, precisam de talento e dos contatos certos, mas não têm que estudar.

Num mundo onde jogadores de futebol e sisters e brothers da Globo, para que estudar?

É o caminho mais fácil. Os jovens querem ser jogadores de futebol não só pela falta de perspectiva de futuro em qualquer outra coisa, no sentido de lutar por algo mais paupável (já que pouquíssimos seram jogadores de fato), mas porque a sociedade glamuriza isso: futebol, Big Brother e Cia.

Para que estudar se, mantendo meu corpinho lindo em forma, posso ter a chance de posar nua na Playboy? Para que estudar se os nosso políticos não se dão ao trabalho de aprender inglês, que ainda é a língua mais importante no mundo (pensando nas possibilidades de comunicação, não em ser "melhor" do que as outras) e é oferecida em todo lugar? Para que estudar se posso ir para o Big Brother e... fazer exatamente o quê lá? 

A vida é muito mais do que jogar no Real Madri ou no Corinthians, mas acredito que a realidade possa ser tão dura para esses meninos, que este parece ser o caminho mais fácil e de acesso mais imediato. Todavia, é a sociedade que reforça isso o tempo todo, como se não houvesse outras coisas para se fazer. O fato é que tudo está difícil e as coisas ficam mais complicadas ainda quando se tem pouco ou nenhum estudo. 

Vejo por mim e por outros amigos que no começo de carreira ganhavam muito pouco. Isso porque somos formados por uma importante e reconhecida universidade pública, o que não quer dizer nada em muitos lugares. Se nós, graduados no nível superior, já tivemos que passar por poucas e boas e muitas vezes não ganhamos o que seria o "justo" pelo nosso estudo, dedicação, blá blá blá, o que dirá quem completa o ensino médio meia boca. Quanto menos estudo você tem, mais você tem que se sujeitar a... tudo, qualquer coisa. Menos possibilidade de escolha.

Eu não me incluo nessa sociedade alienante, pois o meu discurso é outro. Não só o meu, mas o de muitos conhecidos - professores e não professores. A educação tem o poder de mudar as pessoas sim, mas, quem realmente está interessado nisso? A tendência é que as turmas de EJA (Educação de Jovens e Adultos), ensino supletivo do governo municipal, acabe. A justificativa da SME (Secretaria Municipal de Educação) é falta de demanda. Justificativa injustificável, visto que a área de São Paulo em que trabalho têm a maior taxa de analfabetismo entre adultos da cidade. E aí? Será que é a velha história de manter o povo ignorante mesmo para melhor manipulá-lo?

Os maiores ídolos nacionais estão ligados ao futebol. Sim, o esporte é uma possibilidade de superação, por isso apoio as iniciativas relacionadas a ele. Mas superação é muito diferente de se tornar o próximo Ronaldinho. 

O post veio de uma segunda-feira difícil, que me chateou de verdade. Não rolou nada sobre futebol na verdade, eu já vinha com a idéia do post na cabeça há algum tempo. Mas alguns acontecimentos me fizeram refletir e rever uma série de coisas sobre educação e sobre até onde posso ir, até onde vai o meu poder tranformador. O post veio também de uma conversa com o adorável Sr. A. e de como a educação o salvou de um destino cruel. Às vezes sinto que a educação acaba sendo para poucos também, mas me desespero ao acreditar, só por um segundo, que esses meninos não querem ser nada além de jogadores de futebol e que não consiguirei fazer nada para salvá-los de um destino cruel. Mas talvez eu tenha usado o verbo errado: salvar.

Ouvindo The kids aren't all right (Offspring)

Um comentário:

Elaine disse...

Olá menina, tbm sou professora e de periferia e de escola pública, então, enquanto lia seu post fiquei a pensar no que a levou a desabafar...
A educação, para os "profissionais" dela, é de fato muita DURA, e nem me refiro ao fator financeiro, quem se "mete" com isso já sabe que não enriquece... Mas o que é tão desistimulante quanto, na minha opinião, é perceber, tal como vc, que a perspectiva de sucesso para os jovens está "desvirtuado" pelo que a mídia os "proporciona"...
Usei muitas aspas, só pq a conversa é virtual, não gosto pessoalmente...
Enfim, entendo seu desabafo pq eu mesma tenho me feito tantos outros questionamentos sobre...
Boa sorte!