23 de mar de 2011

Os tais sapatos vermelhos e a transcendência

Tanto falei deles que tive que exibi-los na comemoração do núcleo fraternal. Exibi-los, não ostentá-los. Quando os comprei, pensava numa reportagem de revista de consultório de dentista, algo sobre o poder dos sapatos vermelhos. Com Dorothy Gale em mente, procurava um par de sapatinhos vermelhos. Sapatos baixos, pois quem me conhece sabe que eu não sou fã de sapatos de salto alto.

Sonho de consumo? Não sou muito disso. Sinônimo de poder? Poder sobre o que ou sobre quem? A mim me interessa poder sobre minha vida e meu poder de escolha e decisão. Não quero exercer poder sobre nada mais.  Muito menos sobre a sua vida. Simples. Mas não é que senti o tal poder? Principalmente porque eram de salto alto. Não tinha sapato baixo, só alto. Resolvi dar uma chance. E não é que gostei do que senti? Era como se esses centímetros a mais me fizessem ver o mundo por outra perspectiva.

Sem fantasia. Fosse minha, fosse masculina. Talvez os sapatos vermelhos sejam para combinar única e exclusivamente com meu novo tom de voz, meu ânimo redobrado. Sinceramente não sei. O que sei é que me senti muito bem. Claro que a Psicanálise provavelmente explica isso, mas não estou lá muito interessada nisso aqui. E eu mesma poderia arriscar que eles talvez representem  apenas uma forma de auto-afirmação.

É comum relegarmos (gosto desse verbo) nossa auto-afirmação a coisas externas. E seria essa uma explicação bastante razoável para os sapatos... se eu não continuasse me sentindo do mesmo jeito sem eles. De pés descalços sobre o tapete, eu sentia ainda a mesma coisa, a mesma sensação de conforto e satisfação semi-secreta. Era como se eu tivesse transcendido o lugar-comum que representam os sapatos mágicos de rubi, como se eu tivesse ido além do que podem representar ou despertar - em mim e nos outros.

Eu não precisava dos sapatos para me sentir feliz e naturalmente não preciso deles agora para tal. Mas sua aquisição me deu um estalo sobre quem eu sou e sobre o que ando fazendo da minha vida, sobre quem estou me tornando, sobre o quanto tenho mudado nos últimos tempos. Creio que, sinceramente, pela primeira vez, mudar me parece bom, acho que principalmente por que isso tem se dado de modo natural, no dia-a-dia e não por conta de grandes cataclismas emocionais.

Mais uma vez, tudo passou por análise. Graças a Deus não trabalho em laboratório, pois era bem capaz de querer esmiuçar tudo em microscópio e tubo de ensaio (imagino o banda tocando). Sendo o que sou, me contenho e contento em simplesmente ser e sentir, analisando todas as coisas da vida, ou pelo menos tudo o que está ao meu alcance. Não tenho pretensão de ir mais longe e já não me chateio por não entender tudo o que queria.

Quando me viram no núcleo fraternal, não foi nos sapatos que primeiro repararam, foi no meu novo tom de voz, no meu ânimo redobrado, no meu riso desprendido. E eu mesma só reparei nisso tudo por causa de um mísero par de sapatos vermelhos de salto alto, sapatos esses dos quais eu nem preciso de fato, pois carrego comigo, dentro de mim, tudo aquilo de que preciso.

4 comentários:

Anônimo disse...

Eu tinha um carro vermelho baixo, motor potente. Troquei por um fox cinza de motor mil. Mas os 20 centímetros mais alto no trânsito me fizeram sentir mais importante. Nào que tenha a ver com o real contexto do seu texto, eu sei. Mas lembrei.

Saudade.

Gabrz

Luka disse...

Eu amo sapatos vermelhos... de salto... tenho vários... sandálias vermelhas... bota de cowboy vermelha... acho que é a tal da D.Dorothy!

fabioyn disse...

Vermelho é o sangue que nos sustenta. Quanto mais deste, mais forte ficamos. É a cor que circula em nosso corpo, é o "estar-se vivo".
Alguma luz interior teria um tom escarlate?


F.Y.N.

Alline disse...

O vermelho me persegue, na sapatilha, na carteira, no esmalte preferido... não dá uma aquecida no teu dia? Não reaviva e ilumina? Ele mostra um pouco de como sou. Ele faz isso contigo?

Beeeeeijo, Frau!