13 de mar de 2011

Maurício+Malu: Isso

(atendendo a pedidos do que canta em silêncio)

Malu limpava o balcão frio da cozinha fria. Era verão? Nem parecia. Os últimos acontecimentos pareciam ter roubado os ares de verão, as chuvas e a poeira que morria no fim da tarde. Sombria, Malu limpava o balcão já limpo, muito limpo. Que insistência naquilo, naquelas coisas que não davam em nada. Tudo planta podada antes de dar botão.

Ela berrou qualquer coisa da cozinha. Seu grito ecoou pela casa.

- Que porcaria de desinfetante!

Maurício logo chegou, impaciente.

- Que que você tá gritando?

- Por que você comprou esse lixo de desinfetante de maçã-verde? A cozinha fica cheirando a banheiro!

- Por quê, Malu? De onde raios você tirou isso?

- Porque o desinfetante de privada é de maçã-verde!

- E mancha todo o esmalte! Por que você não compra o com cloro?

- E quem é você para me dizer como cuidar da minha casa?

- Nossa casa, você quer dizer!

- Então talvez você devesse procurar outra casa e outra mulher!

Maurício, já muito alterado, hesitou, algo dentro de si ordenou que hesitasse e baixasse o tom:

- E por que eu ia querer isso, Malu?

Ela parecia profundamente magoada, ferida. Despedaçada era a palavra. Seus olhos eram duas luas frias. Escorreu pela parede e se sentou no chão:

- Porque eu... não posso.

Maurício se a ajoelhou e a abraçou, para que ela não começasse a chorar. Mas foi inevitável. O choro viria  de qualquer modo. Ela soluçava descompassadamente e ele não sabia o que dizer. Não tinha nada que pudesse dizer que amenizasse a sua dor, uma dor partilhada, que ele disfarçava e escondia dentro do bolsos do paletó. E ficaram os dois calados, abraçados.

Maurício tinha sido sempre visto como um homem fraco. Seguiria sempre tudo o que Malu falava, cegamente, como todo mundo dizia? Não se importava com a opinião alheia, mas talvez fosse fraco mesmo. Apagava-se para que ela brilhasse, um amigo tinha dito. Tanto fazia naquele momento. Reconheceu-se fraco, mas na sua fraqueza, na sua fragilidade, encontrou forças para segurar Malu em seus braços . Por amor. E por amor deixar as suas próprias lágrimas escorrerem, msiturando-se com as dela. Na sua fraqueza encontrou forças para não deixar que ela afundasse. Sim, ela, Malu, que se gabava de ser a extremamente forte.

- Tudo vai ficar bem - sussurrou ele em seu ouvido.

Só fazia uma semana que ela tinha sabido que não poderia ter filhos.

Ouvindo Stand by me (Ben E. King)

5 comentários:

Alline disse...

Quando algo não vai bem, até o desinfetante é pretexto pruma discussão começar. É assim mesmo...

Beijo, Frau!

Anônimo disse...

... e o desinfetante foi a gota d'água para terminarem ainda mais unidos e sem rótulos "do forte" e "do fraco".

Gabrz.

Vinícius Cássio disse...

Uau! muito bom! (bem triste, aliás)

Gostei da surpresa ao fim da leitura. Texto e imagens muito bem conduzidas!

Ah. gosto do casal Mau+Mal! =-]

Vinícius Cássio disse...

Larissa, escritora.

Leandro Amado disse...

Gostei :)