31 de jan de 2011

Clara e os amores impossíveis

Caçoavam de Clara, de seu modo de ver a vida, de seus inúmeros amores fracassados. Ela não ligava. Olhava para um lado, para o outro e seguia sua vida calmamente. Olhava para um, para outro e viu que talvez estivessem no mesmo barco. Talvez estivessem todos perdidos.

Falavam sobre Clara e os amores impossíveis. E ela tinha tentado, feito tudo ao seu alcance. E nada! De todos os fracassos tinha experimentado um pouco. Às vezes, desanimava e sabia que ficaria sozinha para sempre. Melodrama adolescente. Mas recentemente tinha assumido outra postura. Desde que tinha deixado Louis. Aquilo sem dúvida tinha sido decisivo em sua vida. Deixá-lo para trás era deixar também uma parte de si da qual não gostava, cheia de permissividade, falta de dignidade e perda de tempo.

Agora, ela simplesmente vivia, sem mais buscar nada.  Não procurava, não buscava, não insistia. Ao mesmo tempo, uma esperança morna começava a despontar em seu horizonte de tons pastéis. Esperança de quem sabe secretamente que irá esbarrar com um certo alguém uma hora. E, desta vez, tinha de ser alguém que fosse mais do que um cara bacana-banana. Pouco importava o quando. Sentimentalmente, seguia sem grandes expectativas. Mas nunca se sabe. Tinha motivos para tal.

Clara tinha percebido que viver só cantando de bar em bar não ia funcionar, então arranjou um emprego. Levou seus documentos. O rapaz do RH era uma graça. Mas ela logo notou uma aliança dourada na mão esquerda. Se fosse quem não era, bem podia fingir que nada tinha visto. Mas Clara sempre jogava limpo: não colocaria sua felicidade a frente do bem estar alheio. Nunca tinha passado por cima de ninguém e não era agora que faria isso. Se agiam assim, não era problema dela - o que não fazia seu desprezo por tais pessoas mais brando.

Saiu com o cachorro estranhamente pensativa. Clara sempre fazia o impossível para torna o impossível possível, mas só agora notava que havia coisas que não eram para ser. Que outra explicação ela teria para o fracasso das coisas pelas quais ela tanto havia lutado? Summer que o diga.

Ouvindo:

30 de jan de 2011

Alguém como você

Quem nunca teve o coração partido? Apesar de ser uma comédia romântica despretenciosa, o filme vai um pouco além disso. Alguém como você mostra como Jane passa do céu ao inferno em apenas algumas semanas, depois que o namorado a abandona. Mas o mais interessante (e o enfoque do filme) é como às vezes as pessoas inventam teorias malucas para tentar explicar o que ninguém consegue - e precisam desesperadamente - entender. Quem já passou por isso sabe muito bem do que estou falando.

O filme retrata com leveza e humor esse percurso da personagem, no qual ela constrói um explicação bastante "científica" e "racional" para ter sido abandonada. Mas não é porque é leve e despretencioso que não gera alguma reflexão. Afinal, de quem é a culpa? É mesmo deles, homens? É minha? Ou talvez simplesmente não haja culpa. Talvez só pessoas com medo de se machucar, outras que não sabem ao certo o que querem e outras que não sabem o que fazem - gerando sofrimento alheio. Mas tudo é aprendizado e Jane aprende com seus erros e leva sua experiência a um novo patamar, de reformulação e de transformação.

Gosto do filme porque não cai na auto-piedade, mas nos diverte pelas situações absurdas e nos comove por aquelas situações pelas quais muita gente já passou. Quem nunca esperou por um telefonema que nunca veio? Nossa experiência pode esbarrar com a de algumas personagens e, ao olhar as coisas de fora, por outro ângulo, temos a chance de repensarmos nossas próprias atitudes e decisões.

 A trilha sonora é gostosa: confiram It must be love (Madness) e Absolutely cuckoo (The Magnetic fields). O elenco é ótimo: Greg Kinnear consegue me deixar realmente nervosa (principalmente porque conheço pessoas como a personagem dele), Hugh Jackman está perfeito no papel do badboy e Ashley Judd está extremamente graciosa e e encantadora, além de muito próxima do que muitas pessoas vivem/viveram/viverão ainda. A única coisa que não rolou para mim foi o beijo do Hugh Jackman - e eu não fui a única mulher a ver a cena e dizer que aquele beijo não convenceu.
 E depois que finda a crise e Jane começa a ver tudo com mais clareza, ela volta os pés a terra firme e começa a perceber o que realmente importa e que Ray não era o último homem que iria amar.

Teoria das Inteligências Múltiplas fail

Duro é ter que ouvir que Carla Perez tem inteligência sinestésica porque sabe rebolar como ninguém e que Ivete Sangalo tem inteligência musical porque canta muito bem. Nada contra nenhuma das duas, mas acho que os exemplos não colaram. Pelo menos para mim. Duro é ouvir esses e outros exemplos sem noção de uma doutora.

Ego

Estou fora: isso é entre você e o seu ego - que enche a sala e o saco.

29 de jan de 2011

Nada se cria, tudo se copia

 

A chamada do ig dizia: SPFW aposta em inverno sensual e tínhamos a foto ao lado ilustrando o tal título, como se a idéia das mãozinhas fosse muito original. E de sensual acho que não tem nada. E mesmo que fosse, quem usaria isso no inverno?


28 de jan de 2011

Sex Ortografia



Porque erótico escrito com h - herótico - tirou qualquer graça que o folheto de "prestação de serviços" pudesse ter.

27 de jan de 2011

Contenção

Ele vinha abafando aquilo o que existia de mais sombrio e decadente dentro de si. Todos os impérios entram em decadência uma hora. E só se apaga aquilo o que já brilhou. Entretanto, ele não sabia como lidar com aquele traição sem tamanho medida precedentes.

Não respirava mais, era como se tivesse prendido o ar que apodrecia seus pulmões. Deviam estar negros como os de um fumante. O quarto sem janelas e o fumante floreando desenhos com a fumaça densa. Seu hálito era o de um fumante, embora não fumasse. Era simplesmente o acúmulo de detritos resíduos resquícios.

Tolhia-se sem mais pensar nem sentir. Era o de praxe o conveniente o confortável. Confortável onde? A úlcera estava longe de fazer cócegas, mas a dor fazia com que visse estrelas. Já era alguma coisa. Você já se sentiu, com tanta dor que via estrelas? A cabeça tuntuntuava, o coração manchando toda a sala. Vazava. Sua carne mole e macia ainda, em oposição ao coração endurecido, se esparramava, manchando os tapetes e cortinas. Mas, por fora, impassível.

E um eco de vazio de ausência de omissão negação permissão amaciava seus ralos cabelos. Tudo ali, para quem quisesse ver. Mas ninguém queria. Nem ele mais queria. Era mais fácil se pintar de cego. Mas era mesmo? Mas o que era toda aquela raiva sob a superífice tranquila e benevolente? Mas como um homem bom como ele podia sentir tanta raiva? 

Não uma raiva qualquer, instintiva. Era sim uma raiva pensada argumentada rejeitada - mas presente. E contida, ele a continha com todas as suas forças. Prendia-a com rédeas curtas e severas. Sempre senhor de si. Sempre sob controle. Sempre contendo o sofrimento mais torpe por uma carapaça que pesava agora. Mas, ainda assim, caminhava sorridente, como se nada estivesse acontecido-cendo.

Um dia saiu de casa tranquilamente. Seu andar era despretencioso seguro confiante. Sempre o mesmo semblante. Subiu as escadarias com a costumeira calma e, ainda com ela, deu sete tiros a sangue frio quando abriram a porta. Em seu rosto, não se lia nada. Sempre o mesmo semblante. Era um homem contido.


Desculpe o transtorno

Por motivos pessoais, os posts "diário" e os demais referentes a minha vida estão suspensos por tempo indeterminado.

26 de jan de 2011

Diário: Kick-ass

Hoje é um daqueles dias em que:

You haven't seen anything yet

ecoa de dentro de mim para o mundo.

E o kick-ass mode impera  absoluto.

Só depende de mim estender isso adiante.

Ouvindo Every you every me (Placebo)

24 de jan de 2011

Dos quereres

Queira como quiser: carta, e-mail, bilhetinho, SMS, post de blog, cordel, poema, conto, crônica, romance, lista de compras, fotografias, camisetas pintadas a mão, casinha de brinquedo, boneco de papel machê, pequenos mimos, perfume, rimas, apelidos, suspiros, feitiços, promessas, leituras de tarô, de horóscopo, de mãos, planos bobos, máquinas de lavar, trufa de limão chocolate cereja, bala de coco, sorvete de morango, vinho, balas de mel, de menta, papel de bala, embalagem de bombom, passeio no Parque do Ibirapuera, Burle Marx, Alfredo Volp, Villa Lobos, carona para o trabalho ou escola, ligação no meio da reunião, passada em casa, esmalte bordô, espartilho, livro com dedicatória, livro emprestado, trocado, escolhido a dedo, CD personalizado, ouvido até riscar, editorial de revista, música no karaokê, horas no telefone, filmes assistidos, discutidos, amados, odiados, partilhados, esquecidos, depois relembrados, Etta, Frank, Nat, Arnaldo, Tom, Chico, Adriana, Renato, Herbert, Samuel, Billie, Marisa, Cássia, Nando, piquenique, barzinho, cinema, Paulista, praia, praças, caminhadas, preocupação, saudade, atenção, cócega, passear de mãos dadas, dividir um pastel, dançar polca, dormir abraçados, perder o ônibus, a hora, o sono...

 ufa

E, ainda assim, há os que prefiram o silêncio. Silêncio não é maneira de querer ninguém.

Maurício+Malu: Desejos

Os dois estavam curtindo os últimos dias de férias. Passeio no shopping - coisa de paulistano, ainda mais quando todo mundo tem medo da chuva. Olhavam sapatos. O guarda grandão, sentando numa cadeira altíssima os observava, perspicaz como uma águia, ainda que um tanto lenta e pesada.

- Gostei destes aqui! - ela sorriu, apontando para um par de sapatos vermelhos. Tinha lido alguma coisa sobre o poder dos sapatos vermelhos - Será que eles têm meu número?

O aniversário de Malu estava chegando e ela estava escolhendo o presente. Maurício já se arrependia de ter combinado daquele jeito: não pelo presente em si, mas por ter que acompanhar Malu. Ele detestava compras, adoraria contratar alguém para fazer compras por ele. Sempre que podia, evitava. Mas não naquele dia, naquele dia teve que vencer o aborrecimento, vestir o sorriso mais amável e acompanhar Malu.

- Quero um desses - ela sorriu, já devia ter desistido do anterior.

Ele nem olhava mais: tinha se anestesiado, simplesmente sorria para ela. Malu e sua mania de querer dividir tudo: o dinheiro, os momentos, os últimos pedaços de torta holandesa. 

- E um desses também - ela disse mornamente.

E Maurício olhou com atenção para ela, como se respondendo a leve alteração na voz. Malu apontava discretamente para uma menininha com um balão vermelho.

Ouvindo Solitude (Billie Holiday)

23 de jan de 2011

Diário: Do Riso

Passei a manhã de sábado com o Sr. A. Era muito bom vê-lo de novo, conversar, rir - principalmente rir da sua risada. Tomávamos um café. Ele falou de casamento. Desconversei - e ele sabia bem o porquê. Resmunguei qualquer coisa, contei alguns causos. Contei com naturalidade, sem dramas, sem grandes arrebatamentos. Achei que ele fosse rir comigo, mas não riu. Por fim, declarei:

- Não gosto muito de generalizar, mas boa parte dos homens da minha geração está perdida: não sabe o que quer, tanto no campo profissional quanto no sentimental. Gente sem foco. Não que isso seja o fim do mundo, mas, o que você pode esperar de alguém que não tem a mínima idéia do que quer? Ficam no eterno ensaio e não levam nada adiante, não querem estrear.

Ao terminar, sorri simpática, mas o Sr. A. não riu nem sorriu. Ele me olhou muito sério. Talvez não fosse engraçado, por isso ele não riu - o Sr. A. é bem mais velho do que eu. Talvez o riso seja uma maneira de encarar certas coisas com mais leveza. Dramas e afins são muito desgastante e não combinam com esse sol maravilhoso lá fora. Não mesmo. O riso faz com que tudo pareça menor, menos importante, digno de pouca preocupação. Talvez o riso nasça da impossibilidade de levar à sério certas coisas. E pessoas. Ou talvez porque o (papel de) ridículo tenha se tornado mais frequente.

Romance dominical

22 de jan de 2011

Grandes invenções da humanidade


1) Guia de ruas: tem coisa melhor do que, ao ouvir a terrível frase: "Oh não! Estamos perdidos [de novo]. O que fazer agora?", abrir o guia de ruas e com um sorriso colgate confiante dizer: "Pois eu sei exatamente onde estamos!"?. Quem sabe ler um guia tem a chave para encontrar qualquer lugar, é como ser onisciente! Okay, nem tanto, mas o guia é o tipo de coisa extremamente útil que todo motorista ou co-piloto deveria ter.

2) Sandália baixa: é, eu tenho que ouvir "Não há nada mais feminino do que salto alto!", "Mulher poderosa/sensual/bla blá blá só de salto alto" e coisas do mesmo nível. Não sei o que é pior: ouvir isso de homem ou de mulher. Sou fã das sandálias baixas, confortáveis. Sandália de tira com as quais você passa o dia inteiro, dança, corre, ou seja, faz o que quiser.

3) Limpa Plásticos Pérola: Limpa, protege e perfuma couro e courino. Mas a melhor parte é que também limpa iates! Simplesmente bárbaro! Já tenho o limpa iates, só falta o iate agora. Um detalhe.

4) Caneta Bic Quatro cores: porque se tem quatro cores em high definition com um simples clique. Perfeito para professores que precisam de quatro cores e gostam de azul, verde, vermelho e preto. Melhor do que isso só se tivesse um lapiseira também!

5) Abridor de latas: sem ele, as latas não são nada. Mas se não houvessem criado o abridor de latas, não haveria latas certo? Foram criados para abrir as latas, mas sem eles, elas não teriam sentido - o que me leva a concluir que as latas e os abridores de lata têm uma relação simbiótica.

6) Casquinha mista: já temos que escolher tanta coisa importante, séria, decisiva... Por que ficar em dúvida quanto ao sorvete? Evite o desgaste e peça uma casquinha mista: chocolate e creme.

7) Velas: em uma palavra: versátil. Quer ser romântico? Use velas! Quer ser prático porque acabou a luz? Use velas! Quer quebrar o galho da sua amiga que não está interessada no cara? Seja uma vela!

8) Aliança: ajuda a evitar situações constrangedoras do tipo: "já sou comprometido". Quer dizer, espera-se que o outro perceba. Há os que não percebem (tapados), os que percebem e não ligam (sacanas) e os que percebem e se contêm (comportados). Claro que vai também de quem usa a aliança - e de quem a guarda em situações estratégicas. Pensando bem, pelo que tenho visto, aliança não quer dizer absolutamente nada. "Não basta o compromisso, vale mais o coração".

9) Musicais: pouco importa que não se comece a cantar e dançar do nada no "mundo real". Quer "realidade"? Assista um noticiário. A vida precisa de leveza e musicais são um dos modos de consegui-la.

10) Bonecos Lego: senso estético e arquitetônico, criatividade e aspirações engenheiras são apenas alguns dos muitos aspectos positivos despertados por esses brinquedos geniais. No meu caso, foi um dos determinantes para o fato de eu adorar contar histórias: construía a casa, o restaurante e contava a história da bonequinha independente e solteira. Acho que já vi isso em algum lugar...

20 de jan de 2011

Desce

Ele trouxe uma escada de bombeiros.

- Desce, pode descer - pediu ele.

- Tô com medo - ela gritou lá de cima.

- Mas você não tinha medo de subir? - ele engrossou.

- Tinha - ela respondeu insegura.

- Então qual o problema de descer? - ele não entendeu.

- É que eu não sei o que vou encontrar aí embaixo - ela hesitou.

- Também não sabia o que ia encontrar aí em cima e subiu, né? - ele racionalizou.

- É, é verdade - ela concordou.

- Então desce agora! - ele ordenou

Ela ficou olhando lá de cima. Antes ficava tão bem em terra. Nunca confortável lá me cima, não gostava das alturas, tinha medo de cair. Num último ato de obediência, desceu do pedestal. Todavia, continuava insegura. Na verdade, mais do que nunca. Nunca segura na condição de musa e não mais segura na condição de reles mortal. Antes de deixar de ser ela mesma, as coisas não eram assim.

- Satisfeito? - ela perguntou séria.

- Não muito - ele resmungou.

- Parece que você nunca está satisfeito comigo! - ela se irritou.

- Você me decepcionou - ele sofreu.

- Por isso me mandou descer? - ela se inconformou.

- Por que você subiu, afinal?! - ele gritou.

- Você não se lembra? Foi você quem me colocou lá em cima...

 Ouvindo Preciso dizer que te amo (Cazuza)

Não me engana: sou esperta!

Dez "mentiras" do nosso dia-a-dia:

1) Shampoo 2 em 1: ele simplesmente não existe e ingênuos os que acreditam em sua eficácia. O próprio nome já diz "shampoo".

2) "Se sujar faz bem" (do sabão em pó Omo):  quero ver a mãe que concorde com essa afirmação - a minha, pelo menos nunca desmonstrou qualquer simpatia pela simpática campanha publicitária.

3) Quem sai na chuva é pra se molhar: Não, quem sai na chuva, sai porque precisa, seja para trabalhar, estudar, ir ao médico ou para qualquer outro compromisso inadiável - principalmente em São Paulo no verão. E se chove, é bem possível que tenhamos sim que adiar ou correr o risco de chegar atrasados.

4) Gasolina aditivada: aditivada sim, com solvente!

5) Bom-mocismo: Uma prova definitiva de que somos bobos e nos deixamos levar pelas aparências. Me deparei com três pessoas que ostentavam bom-mocismo e, no fim, se revelaram grandes farsas. Fica fácil usar o bom mocismo como máscara e a fala mansa como sinônimo de mansuetude - e são coisas completamente distintas. Já vi muita gente se humilhada por pessoas que falavam mansamente.

6) Numeração de roupa: porque elas têm numeração e podem ser classificadas em P, M, G ou GG se isso não é padronizado? Dar roupas de presente virou uma tarefa ridícula! Mesmo para comprar roupa para mim eu levo tempo, e olha que minha numeração é padrão.

7) Leite desnatado: só tomo leite desnatado e vira e mexe me deparo com nata boiando na minha caneca. Quem mexeu no meu leite? De onde veio a bendita nata?

8) Aparência não importa: pura hipocrisia. Não digo que é o mais importante, pois não acredito que seja, mas é importante sim. A gente é julgado pela aparência e julga pela aparência sim senhor - quero ver o primeiro palhaço que me disser o contrário. O melhor exemplo disso é a entrevista de emprego, na qual nossa a aparência tende a idealizar o funcionário perfeito, ou aquilo o que acreditamos que seja um.

9) Sabonete hidratante: experimenta lavar o rosto com ele - depois de secá-lo vai sentir a pele se esticar e esticar, não sobra uma ruga e não estou falando de hidratação.

10) Queijo minas não engorda: engorda sim! A gente precisa entender que nada em excesso faz bem! Nem mesmo água, pois se você beber muita, mas muita, mas muita água mesmo, diz adeus a todos os sais minerais que vão embora com a urina e você morre! Morreu afogado? Não, bebeu água demais.

Observação: o último tópico é o único com bases científicas, o resto é farra, naturalmente.

19 de jan de 2011

Clara e o sonhador

Clara sentou-se sobre a cama. A colcha era macia e rosa-chá. Suspiro longo. Olhou para o rapaz adormecido ao seu lado. Certamente sonhava. E ela ali, tão acordada. Tão lúcida. Não se arrependia da noite passada, mas. Estava morno, apesar do céu nublado que se brotava pela janela. Era passado agora. E os minutos pareciam demorar a passar, enquanto ela amarrava o all star azul. 

Ele logo abriu os olhos, lentamente. Encarou o teto cinza para descer e pousar o olhar nas costas de Clara. Mais particularmente na pintinha perto da alça da blusa (sua pintinha preferida). Notou que havia algo errado: ela já vestida, pronta para. Onde você vai? surpreso. Pergunta boba, é claro que ia embora. Seu sorriso maternal dizia tudo. Mãe que abandona os filhos.

- Almas gêmeas nunca morrem.

- E você acredita nisso?
- Que elas não morrem?

- Não, que elas existem?

Seus olhos estavam abertos e parecia quase lúcido enquanto se sentava na cama, aproximando-se de Clara, escorregando a mão por suas costas. Tocou-lhe o rosto, levemente. Os olhos diziam: Sou sua. Era isso? Ele leu certo? Sabia ler? Mas os pés estavam prontos para partir, disso tinha absoluta certeza. O mistério era um véu que o cegava enquanto ela partia, partindo-o em dois.

Fragmentado, tentava se recompor do silêncio dos seus olhos que pararam de lhe falar. Não saberia dizer quanto tempo passaram olhando um para o outro. E ela evaporaria. Partiria como tinha chegado: suavemente. Mas então, como explicar a sua intensidade? Chegou como quem não queria nada, não prometeu nada. Só existiu, existia. Como é que aquilo tinha bastado? Não devia, não era certo.

Ela se levantou finalmente. Pegou a bolsa de couro marrom. E seus olhos castanhos eram de uma doçura de chocolate e café - apesar da partida, estimulante. Mas ele continuou sentado, mal sabendo que o fato de não ter se levantado era uma dos motivos da partida de Clara. O rádio-relógio despertou. Wake up alone. Conforme ela se afastava, a música parecia encontrar mais e mais eco no quarto cinza, que tomava conta de tudo, engolindo todas as cores e móveis.

E ele, mesmo acordado, continuava sonhando.

Ouvindo The white lady likes you more (Elliott Smith)

18 de jan de 2011

Diário: Divagações noturnas

Gosto muito de sair à noite. Não, não sou muito de ir a baladações, essas coisas. De vez em quando é divertido, mas tenho amigas que fazem disso um ritual semanal. Bom, aí acho que cansa, né? Gosto de estar fora de casa à noite, simples assim. Ver céu, estrelas e afins. E a lua, é claro. O ar, o hálito, o hábito - são todos diferentes. E eu também. Acho que flutuo mais, saio da órbita terrestre.

Quando desci do trem hoje, ainda era de tarde, abracei o meu livro como uma menina abraça seu amante. De quem era aquela citação? Clarice Lispector. Estava aos pulos, queria terminar o livro a todo custo. Não, o livro não era de Clarice. E eu, estranhamente, era outra. Feita de bronze, mais forte de que qualquer material conhecido. Sentia toda a intensidade que meu corpo poderia suportar quase escapando pelos poros - uma tarde quente que logo ia desabar em chuva de verão. Mas, em desacordo com tudo, na minha cabeça só tocava I'll try anything once, o que me fez/faz lembrar. 

Saí munida de mim mesma de dentro do trem e corri para a escada rolante. Um sorriso que não descolava do meu rosto. Nada de cola Pritt. Corri até a escada por puro prazer. Prazer simples e bobo. Depois corri até o último vagão do metrô. Fiquei vendo as pessoas passarem e imaginar as vidas que levam. Quis pôr tudo em verso. Ou prosa, no meu caso, mas dizer que vai pôr em verso fica tão mais bonito!

Eu li não sei onde: "Quero alguém que me transborde" e achei bonito. Porque essa coisa de metade da laranja é coisa de Fábio Junior e, convenhamos, Fábio Junior é um dos inúmeros sujeitos para não se levar a sério. A lista é longa. Completo todos somos, a despeito do que tentem de convencer. Mas eu gostei dessa idéia de transbordamento... embora ela se refira ao excesso ou a algo além das nossas necessidades. Até hoje nunca vi alguém exceder as expectativas alheias - ou, se isso aconteceu, foi por um prazo muito curto de tempo para terminar em lágrimas. É claro. Deverei afogar minhas mágoas em rosquinhas de pinga? Não têm álcool, mas valem simbolicamente, não? Ou chocolate? Não, também não é a minha cara. Talvez eu me afogue num tanque de carpas - bastante simbólico. Não, ninguém vai se afogar hoje. Prefiro afagar o gato que não tenho.

E chega de simbolos. E que ninguém se meta com as minhas metáforas, tentando moldá-las à vontades torpes. Quero a concretude do asfalto com um toque de algodão-doce. Pode? Li hoje:

"As mulheres são decididas e realistas. Elas se escondem, dissimulam, quem sabe em função do que o homem esperava delas. Na verdade, conseguem ter o pé no chão e sonhar, qualidades que poucos homens têm ao mesmo tempo."

(BRANDÃO, I. de L. O beijo não vem da boca)

É exatamente isso o que tenho visto - o que me assusta e encanta ao mesmo tempo.

Voltava de trem. Noite fechada já. E eu na estação com a qual tenho uma relação de amor e ódio. Pensava em terminar o meu livro - o que lia e o que escrevia. E nas estranhas relações que se desenhavam na minha cabeça momentaneamente avoada. Será que é isso tudo mesmo? - "e" longo. Nem ligo. Devo estar fantasiando, de novo. Nem ligo. Logo passo e estou de volta ao normal. Normal? Só sei que cansei do desperdício, mas não reciclo mais nada.

Ouvindo Precious Illusions (Alanis Morissette)

De onde veio o termo "spam"

17 de jan de 2011

O burrinho Jambo

Era uma vez uma menina de laço azul e ela tinha um burrinho chamado Jambo. Jambo era um burrinho simpático, tranquilo e carinhoso e acompanhava a menina por toda a parte. Ela o poupava ao máximo, não queria que ele se sobrecarregasse. Todavia, era um pouco desastrada.

Por isso, por vezes, a menina de laço azul amarrava o burrinho Jambo em lugares perigosos e suspeitos. Tudo por inocência e ignorância. Com freqüencia, ela tinha que sair correndo para salvar o burrinho de alguma enrascada:

- Olha onde fui amarrar o meu burrinho! - ela dizia chateada.

Jambo, entretanto, sempre se manteve fiel e sabia que um dia a sua querida dona aprenderia a lição. Como um dia aprendeu. E passou a amarrar Jambo em lugares seguros e tranquilos, de modo que ele nunca mais correu perigo.

16 de jan de 2011

Pequenos prazeres

Às vezes eu acho que nos fechamos demais. A blusa até o último botão. O sentimento até o sufocamento. O cansaço até a exaustão. Nos podamos sem nos darmos conta. E um dia morremos sem termos vivido como deveríamos. Não celebro o hedonismo e acho que o carpe diem virou desculpa para fazer as coisas de modo inconsequente com a justificativa de viver até a última gota.

Acho que temos mesmo que viver até a última gota, mas com equilíbrio - essa é a chave da vida, não? Aproveitar o dia de hoje como se fosse o último quer dizer sempre aproveitar todas as chances que a vida nos dá. E como as pessoas desperdiçam as tais chances! E pensando sobre elas, comecei a pensar nos pequenos prazeres da vida e no significado de liberdade.

Liberdade é usar shorts curtinho sem ninguém buzinar no seu ouvido - e tentar te convencer que as calças compridas são para o seu bem. Liberdade é comer o seu sorvete sem se preocupar com peso, açúcar blá blá blá. É não ter que dar satisfações ou justificativas sobre o que você sente. É perder as chaves de propósito.

Eu voltava para casa quando começou a chover. Saímos da lanchonete, me despedi de duas amigas e fui para o ponto de ônibus.  A princípio, como de costume, me escondi debaixo da cobertura do ponto de ônibus. Liberdade foi o que eu senti quando não abri a bolsa: deixei o guarda-chuva lá. 

Desci do ônibus com um sorriso no rosto e as gotas caíam como uma benção. Era um daqueles momentos perfeitos, sabe? Sensação intensa de se estar viva, sentindo a água cair delicadamente num dia quente. E eu andando lá, sem me preocupar com nada, só caminhando na chuva. E percebi que minha existência tem sido recheada de dias perfeitos e me senti incrivelmente grata por isso.

Aquela caminhada na chuva até a estação de trem foi como uma declaração de liberdade. Além disso, redescobri nela, um dos pequenos prazeres da vida, aqueles que dependem do seu olhar perante o mundo - e não do quanto carrega na carteira. São aquelas coisas simples que fazem o seu dia mais brilhante. E é isso o que vale: os pequenos prazeres da vida. Mais vale a companhia [boa] do que o lugar. Posso tomar café no mesmo lugar na mesma semana com cinco amigos diferentes. Porque o que me importa é a companhia. Sim, isso aconteceu.

Não importa a caixa de Ferrero Rocher dada com toda a pompa. Na maioria das vezes, uma singela trufa recheada vale muito mais. Ou simplesmente três balas de coco. Tudo depende de quem degusta o dia.

15 de jan de 2011

Senhas ou Convite

Alguém bateu na porta uma vez. Ela fez que não ouviu. Bateram de novo. Ela ignorou.

Se baterem mais uma vez, eu atendo, ela pensou.

Queria ver o quanto batiam, o quanto persistiam. E bateram mais uma vez. As três vezes do mesmo jeito: três batidas suaves, mas firmes, decididas, sem desespero, sem pressa, muito certas.

Ela se levantou, colocou os chinelos. Chovia lá fora, mas ela não se importou em demorar a atender. Quis ver o quanto persistiam. Quis ver o quanto ela valia a pena para ver se valia a pena para ela. Cansou de ser trancada para fora, de ficar sem as chaves, sem as senhas, quando tinha entregue suas chaves e senhas e sempre deixado que entrassem. Também não queria mais ninguém tentando quebrar as janelas, nem forçando passagens e caminhos. Não queria quem quisesse que ela recolhesse as chaves que já tinha dado ou que quisesse que ela trocasse as chaves, trancas, maçanetas... e portas! Eram as portas dela. Madeira pintada de branco. Pois quem quisesse que ela mudasse as portas, ia logo querer mudar a cor das paredes. Um cômodo de cada tom pastel.

E, sendo assim, abriu a porta:

- Ah! É você!

Ela sorriu. Pegou-lhe o guarda-chuva e disse para que tirasse as galochas. Ele conhecia as senhas, mas não as usou. Tinha as chaves, mas preferiu bater na porta. Sabia de todos os códigos, mas se fez de esquecido. Talvez porque, lá no fundo, sabia que ela abriria a porta. Sabia-se ser sempre bem vindo.

Ouvindo:

14 de jan de 2011

Sem fantasia

Recebi muitos conselhos ano passado e um dos bons foi: Não fantasie demais. Não vou levantar aqui o contexto no qual ele me foi dado, mas posso dizer que se aplica a todos os campos da  vida. E é de fato muito efetivo.

É dolorido ouvir isso, afinal, a tal fantasia pode ser encarada como as expectattivas que temos. Não qualquer expectativa, mas as grande expectativas, das quais muitas vezes não conseguimos fugir (e queremos?). Mas de uns anos para cá, depois de muita coisa, tenho encarado isso tudo de um modo bem diferente. Afinal, é preciso aprender alguma coisa cedo ou tarde, não?

Está ficando mais fácil não esperar grande coisa dos outros, ou então, esperar aquilo o que é da natureza alheia. Se a natureza de alguém é fraquejar na primeira dificuldade, não posso esperar que seja diferente. Se alguém tende a fugir diante do inusitado, não posso espearar algo distinto. E esse movimento de "perda de expectativa" não é uma coisa restrita a minha vida: conheço muita gente que aderiu, por assim dizer, a esse novo modo de vida. Posso até tentar fazer a diferença na vida de alguém, mas...

Já ouvi que espero demais dos outros. Na verdade, espero um mínimo e  se esse mínimo não vem, bom, aí não tem ser humano que se contente. E sempre vou esperar um mínimo e não sei se faço isso por tal coisa ser uma coisa minha ou se me comporto assim por ser simplesmente humana. E, sendo humana, aprendi a respeitar os meus limites e aprendi a me respeitar também.

Assim, se, mais uma vez, as pessoas me deixam sem saber o que pensar, onde estou pisando ou o que fiz de errado, não me importo mais. O négocio é tocar o barco - que mais poderia fazer? Não posso esperar dos outros aquilo que sou/faço/sinto, posso? A resposta é não. E muitas vezes nós realmente não somos o problema. Ou então, quem disse que há um problema?

Mesmo porque, é difícil esperar algo de alguém que não quer se dar. O que esperar de alguém assim? Ou de alguém que simplesmente nem aceita nem recusa um convite inocente? Por que eu me decepcionaria com isso? Ou por que eu me decepcionaria por não se importarem sobre o porquê de certas decisõse minhas? Não era importante. Aliás, ando revendo meus conceitos sobre imporância.

13 de jan de 2011

Um dia de Audrey Hepburn

Porque me apresentaram essa cena de uma das minhas musas e me identifiquei com ela - a cena, não a musa. Sou uma reles mortal diante de Audrey Hepburn - é óbvio - mas um dia levantei querendo uma mudança, fui ao cabelereiro. Mais curto. O cabelereiro duvida. Mais curto. Bom, a cena fala por si só. E a satisfação da personagem - a dela e a minha com o cabelo curtinho.


262 - Amor 7

por Carlos Ruas


 

12 de jan de 2011

20 e poucos anos: Sinceramente

Lô entrou irritada bufando na sala e eu já sabia até o que era: a máquina de lavar estava quebrada, o que fazia com que ao final de cada ciclo a roupa terminasse ainda encharcada. Ela se sentou no sofá, bufou uma última vez e espiou o que eu estava fazendo.

- São aquelas suas fitas?

Balancei a cabeça. Eu estava sentado no chão, procurando uma música numa das minhas várias fitas K7.

- Você já pensou que isso tá ficando ultrapassado?

Me virei para ela e fiz uma careta.

- Bom, também acho que baixar muitas da inernet é muito impessoal.

- E está cada dia mais difícil achar fitas virgens para as minhas gravações. Gravar CDs não é a mesma coisa, definitivamente.

- Não, não é mesmo. Mariana 3. O que posso encontrar nessa fita? Posso ouvir?

- Pode é claro. Tem Arnaldo Antunes, Frank Sinatra, Feist, Cat Power e um pouco de jazz.

Lô sorriu.

- Só você mesmo para fazer uma coisa dessas.

- É literalmente a trilha sonora da minha vida.

- Das suas paixões, você quer dizer. Acho isso tão bonito, você ter essas fitas todas com as músicas das suas namoradas. Ou quase-namoradas.

- Bonito? Tem gente que diz que é apego negativo o que eu tenho.

Lô se levantou e sentou perto de mim.

- Todo mundo é apegado a alguma coisa. E quem disser o contrário está mentindo. Mesmo. Você é apegado à boa música e as mulheres que de algum modo se conectam a isso.

- Acho que é o contrário: sou apegado às mulheres e à boa música que se conecta à elas. Mas não me sinto mal por isso.

- São lembranças suas, parte da sua vida. Também não te vejo preso em casa, ouvindo as fitas o dia inteiro. Você tá tocando a sua vida, né?

- Sim, tenho até um encontro no sábado.

- Mesmo? Então alguém está se dando bem aqui. Chamei um cara para sair e ele nem deu sinal de vida. Mais uma vez fico sem saber o que está errado - ela respitrou fundo - Enfim, vou acabar descendo para o litoral com a Clara. Vou com aquele biquini vermelho.

- O que causa furor?

- Não caçoe de mim! Ele bem que me rendeu boas histórias.

- Sim, eu sei, você me deu uma prévia delas, mas não entrou em detalhes.

- Nem vou.

Ela sorriu de novo. Dei-lhe um suave beijo na testa.

- Mas o que você está procurando?

- Uma música.

- Qual?

- Tenho vergonha de dizer.

- Hã?

- Não gosto nem um pouquinho da banda, mas uma música deles caiu como uma luva.

- Entendo. Que música é? Posso te ajudar - disse ela começando a mexer nas fitas.

- Sinceramente do Cachorro Grande.

- Eca. Entendo porque você tem vergonha. Não tem nenhuma fita com Coltrane? Quero me intoxicar com ele hoje.

- Tenho sim, deixa eu ver.

Procurei numa pequena pilha à minha direita e lá estava o dito cujo.

- Está aqui - disse entregando-lhe a fita.

- Vamos trocar? - e Lô me entregou outra fita.

Era a fita que eu procurava.

- Mariana 2. Ela foi importante, hein?

- Bastante. Obrigado. E fique com o Coltrane o tempo que quiser. Tem Johnny Mathis e Elvis Presley também. Só cuidado com a fita, ela é única.

- Oba. Obrigada, Raul. Pode deixar que eu cuido bem da sua fita. Sei que ela é única, assim como a Mariana.

- Sim, é, mas por que você diz isso?

- Porque a fita do Coltrane é a Mariana 1.

Ouvindo Sinceramente (Cachorro Grande) e Naima (John Coltrane)

11 de jan de 2011

Estômago

Discutiam. Ele mandou que ela dissesse tudo, que não guardasse mais nada, que desabafasse, abrisse seu coração. Assim ela o fez: vomitou todas as palavras que apodreciam dentro de seu corpo torpe e frágil, todo o sofrimento, toda a angústia. Mas não teve tempo de sentir o menor alívio, sucumbindo logo em seguida: sem aguentar o que (ou)via, ele mandou que ela engolisse tudo de volta.

Sutilezas

Ela entrou com o material na sala de reuniões. Um dos engenheiros já estava lá, bastante impaciente. Ela explicou um pouco intimidada:

- Desculpe, parece que houve uma falha de comunicação. Me disseram que o nosso encontro seria em outra sala.

Ele resmunga alguma coisa e vai chamar o outro engenheiro. Logo volta trazendo o colega de trabalho e sai para pegar lápis e caneta. O segundo engenheiro olha para ela:

- Eu tinha te visto passar algumas vezes pelo corredor, mas nunca ia imaginar que a reunião era com você.

Quando e como eu gosto de violinos


Isso me impressiona. Sai do lugar-comum da banalização dos violinos. Enjoy it!
















Procurem por mais vídeos com o nome de String Quartet Tribute no youtube.

10 de jan de 2011

Diário: Dos vegetais problemáticos

Será que só eu não sabia que existe a Lapa Alta e a Lapa Baixa? Ouço o Coro grego (a consciência da cidade): Sim, sua tola! Depois de hoje, perdi a vontade de visitar o mercado de lá - um dos programas de índio próprios para se fazer com o namorado que, por generosidade, aceita de primeira - embora eu ache que um passeio ao mercado da Lapa seja um convite irrecusável.

Tinha pepinos e abacaxis para fatiar na Lapa. Então fui - sem ter a exata noção do quão longe ela fica das minhas terras. Morri de medo de me atrasar, mas cheguei cedo. E como era (e aliás é) longe! Sou de São Paulo, mas conheço muito pouco. E ir até a Lapa foi realmente uma prova de como moro longe da civilização!, conforme meus amigos de faculdade costuma(va)m dizer. A Paulista parece a esquina de casa, se comparo com a Lapa.

Porque não me perdi na ida, me perdi na volta. No meu aniversário, vou pedir um GPS, uma bússola ou um geógrafo para me acompanhar, do contrário não dá, simplesmente não dá. Eu estava impecável, sapatinho e tudo. E um calor miserável que eu derretia. I melt without you. E sem almoço, é claro.

- Você está sem almoço? - pergunta bonitinha de mãe.

para chegar em casa e me deparar com um prato delicioso feito por Charlie.

Aliados aos vegetais problemáticos, veio o esporro. Bom, o esporro veio antes. Okay, alguns esporros são necessários - Teoria da Terapia de Choque. Mas acho que o pior esporro é aquele que nós nos damos. Chega de esporro: consegui fatiar meus vegetais, pepinos e abacaxis, com perfeição, como de costume. Nada como um bom conjunto de facas Guinzo. Quem sabe hoje eu consiga dormir decentemente, sem mosquitos nos meus ouvidos e Harry Potter me acordando à meia-noite.

Ouvindo Ironic (Alanis Morissette)

9 de jan de 2011

Arrebatamento

Um dois três um dois três. Solta esse quadril. Por uma hora e meia eu me desliguei de tudo e de todos. Nada mais importava. Saí de lá leve, levinha. Rodopiando. Nem sabia que dia da semana era, nem das horas. Aquilo realmente tinha mexido comigo. Como se num lampejo eu tivesse encontrado a respostas para todos os meus problemas. Sim, eu sabia que não era, mas sou uma pessoa romântica, então minha primeira sensação (e desejo) foi esse.

Tudo se tornou mais claro. E a confusão foi embora, como se rodopiando nos braços de um estranho ao som de uma música desconhecida eu tivesse entendido finalmente tudo o que precisava. E o conflito entre querer vs. precisar se desfez, porque assim eu tinha escolhido. Chovia quando saí de lá e nem me importei. A chuva não me incomodava mais. O meu querer mais uma vez se dobrava ao meu precisar. E isso me fez feliz.

De repente, não mais do que de repente, decidi a minha vida. Deixar certas coisas para trás podia ser tão difícil, mas eram novas perspectivas, outros sabores, possibilidades antes desconhecidas. Guardei a melancolia numa pequena caixa, que espero perder até a velhice. Por ora, novas traquinagens a caminho.

Encontrei alguns bilhetes meus. Arteiros que só. Arteiros como meu olhar agora. Para quem enterrou um grande amor, tudo é possível. Tudo fica mais fácil, creio. Um pedaço sempre vai faltar, o que não me impede de seguir com toda a graça que me for possível, com toda a intensidade a que me resumo, com toda a paixão pela vida que concentro em meu corpo morno e moreno.

Molhei meus pés na chuva, depois de rodopiar nos braços de um estranho. Fazia tempo que não me sentia tão viva.

Ouvindo Carinhoso (Pixinguinha)

7 de jan de 2011

Sobre bolos de cenoura [antes] deliciosos

Eu estava voltando do trabalho e parei em frente a confeitaria. De novo. Sim, seria a segunda vez no mesmo mês. Eu nem era tão chegada em doces, mas aquele bolo de cenoura... Ah! Quem já tinha provado dele queria mais! E eu queria mais, sim senhor!

Flertei com ele na vitrine. Sim, adoro flertar e adoro a palavra em si também. Mas pensei, poxa, é um preço tão salgado para um bolo tão doce... Bom, eu me daria a esse luxo, vai que amanhã eles deixam de fazer o bolo. Eu olhei para ele, ele olhou para mim. Bum! Química... Okay, química não é tudo, mas bastou naquele momento.

Convidativo que estava, entrei, escolhi uma mesinha perto da janela e fiz meu pedido. Mal podia esperar para sentir de novo aquele maravilhoso bolo de cenoura se desmanchando na minha boca. Macio e doce. A cobertura de chocolate meio amargo que contrastava com o sabor suave da massa. O garçom simpático trouxe meu pedaço de bolo. Agradeci simpática e esperei que ele saísse para que eu pudesse pegar meu primeiro pedaço de bolo.

Delicadamente, cortei um pedaço com o garfo...

... mas era só fachada. Só aparência. Esfarelou à primeira mordida, seco que estava. Seco e sem sabor. As coisas não podem não ter sabor, eu acreditava. Devia ter gosto de alguma coisa. Gosto do quê? Não sei, afinal ausência de sabor não pode ser considerado um sabor. Sonso.

Seco e sonso. Era aquilo? Era aquele o bolo que tinha alimentado minha imaginação durante o mês? Era sim. Será que ele já era assim e eu era outra, alguém que acharia um bolo como aquele maravilhoso? Ou fui eu quem mudou nesse meio tempo e agora não o reconhecia mais? 

Fiquei olhando para o pedaço de bolo mordido sobre a mesa. Não, não quero mais, poderia ter dito manhosamente, como uma faz uma criança que recusa alguma coisa. Mas não disse nada. Só fiquei olhando tentando entender. Todavia, tinha mais o que fazer. Deixei o bolo solitário sobre a mesa, paguei e saí. Acho que não era nada do que eu tinha pensado. Ou talvez ele sempre tivesse sido assim e só eu não tivesse percebido. Fosse como fosse, havia ainda outros bolos de cenoura me esperando por aí.

5 de jan de 2011

"Let romance happens!"

Para a Gata de Chapéu

Foi o que dois amigos me disseram. Fiz que não era comigo. Romance? Onde que não estou vendo? Torci o nariz. Essas coisas não acontecem comigo, não mais. Azedinha que só! Azeda não: realista. Só cuidado para não racionalizar demais e deixar a emoção passar. Emoção? Eu não vejo nada passar.Ou será que só finjo que não vejo? Meus óculos estão sujos, mas mesmo limpando não consigo ver o que está acontecendo.

Conversávamos sobre coisas antigas e uma amiga muito querida me disse:

- Você é uma pessoa que sabe o que quer e não deve pagar pela incerteza alheia. [...] Duro é saber o que se quer toda vez e ter que aguentar a lerdeza de quem não consegue traçar rumo nessa vida. [...] Determinação assusta os homens que não entendem que auto-suficiencia não significa menos amor [...] Só não significa parasitar e viver em função de, mas simplesmente viver com.

Foi uma das coisas mais bonitas que ouvi ultimamente. Mas não creio que seja o caso. Não mesmo. Tenho pagado pela incerteza alheia e resolvi me dar umas férias. Estou na praia pegando uma cor. Nem sempre é assim. Às vezes as coisas não são o que parecem. E às vezes o parecer reflete perfeitamente o ser.

Idéias fora do lugar

A: - Acho suas idéias brilhantes!

B: - Ah! Obrigado, bondade da sua parte.

A:  - Só tem um probleminha: você não se comunica muito bem.

B: - Como assim?

A: - Eu percebo que você tem dificuldades de transmitir suas idéias.

B: - Não é dificuldade: é falta de vontade.

A: - Mas se for assim, como vai compartilhar o que pensa?

B: - E quem disse que quero compartilhar?

Ouvindo Skipping stone (Amos Lee)

Diário: Sobre livros

Por que tenho uma amiga que me manda foto de todos os recém-nascidos cujos pais mandam fotos? Não sei, só sei que me ligar às sete e vinte da manhã por uma bobagem qualquer é realmente triste, não? 

Ontem fui passear com a Charlie. Surtei de manhã: Vou à Livraria Cultura comprar um dos livros do mestrado, vamos comigo? Ela topou e saímos antes da chuva, depois do almoço. E eu me lembrei de como amava a Livraria Cultura - livrarias de modo geral. 

Nem tanto pelos momentos memoráveis já passados em muitas delas, mas pelos livros em si. Quis levar toda a seção de crítica literária e literatura comparada! Mas não deu e eu tinha ido em busca do Schwarz, aliás dois livros dele: Ao vencedor as batatas e Um mestre na periferia do capitalismo. Achei só o primeiro: o segundo só com encomenda na Saraiva, três dias úteis. Quis levar Pound, Candido, Walnice Galvão, Barthes, Raymond Williams, Terry Eagleton, Susan Willis ... Enfim, toda a seção de crítica literária, fazer uma festa lá em casa. E não vou sossegar enquanto não comprar A era das revoluções e A era do capital de Eric Hobsbawn - um dos caras mais legais que conheci na faculdade.

Mas vou ter que sossegar, porque tenho já bastante o que ler: além do Schwarz, comprei também Mulheres de papel de Luis Filipe Ribeiro que eu nem pensava encontrar para comprar. Dei sorte. Voltei feliz com minhas duas aquisições. Abraçava os livros como uma mulher abraça seu amante - de quem era essa citação? As palavras não eram exatamente essas, mas era isso, não era? Ah, Clarice! Já gostei mais dela, hoje gosto mais de outras coisas.

Resdescobri como gosto de crítica literária. E como gosto de escrever  - dois livros prontinhos. Gosto de falar de literatura e a apresentação que fiz sobre minha pesquisa em novembro fez isso ainda mais evidente para mim.

E gosto de literatura. Na fila do caixa da Fnac, a menina na minha frente levava A insustentável leveza do ser do Milan Kundera e isso me fez feliz. Vontade de dizer: Saboreie o livro, mas eu também poderia ter sugerido Risíveis amores, o meu preferido, ou então The Hitchhiking Game, um dos contos mais devastadores do autor que já li.

Seja como for, estes têm sido dias literariamente deveras produtivos. O que é um bom sinal.

4 de jan de 2011

Tea for two


O garçom:

- E aí, o que vai ser?

- Não sei ainda: estou entre o chá de sumiço e uma boa dose de paciência.

O balde



Resolveu por fim chutar o balde. E o fez de tal modo que além da água imunda espalhada pelo chão, teve que arcar com a janela que o balde acertou. E como era de sua natureza, pagou o conserto do vidro, desmanchando-se em desculpas. De joelhos limpou a água suja. Ajoelhou tem que rezar. A água era tão escura que nem se podia imaginar que um dia fora limpa. Lembrou-se: roupa suja se lava em casa.

3 de jan de 2011

Dos acentos só pronunciados

Sempre as mesmas dúvidas sobre acentuação. Não, não acentos gráficos, aqueles exibidos e por vezes petulantes que grafamos – para isso existem manuais. Falo dos acentos que só percebemos através da entonação, aqueles que temos que saber no dia-a-dia, em qualquer conversa. O que fazer quando não se sabe? Acho que vale uma dose de bom senso, sorte e alguma ousadia. Bom senso porque as entonações não são ao acaso: há regras até para elas – mas vou eu lá decorar regras para falar as palavras? Sorte porque toda a regra tem sua exceção – caso você siga as regras, obviamente. E ousadia de tentar, mesmo na dúvida ou insegurança.

Incesto, por exemplo. Eu fecho o ‘ê’: incêsto – nunca tinha ouvido ninguém falar essa palavra, só tinha lido, como saber? Que vergonha! Fez faculdade de Letras e nem sabe a ‘correta’ pronúncia das palavras... tsc tsc tsc. Então L.C. zomba: “é incésto, abre esse ê!” – às vezes acho que Édipo nunca me perdoaria. Fica incésto! – não gosto, mas fazer o quê? Não tenho que gostar – falar é o suficiente. Na dúvida, prefiro perguntar. Viro-me para B.W.: “é rúbrica ou rubríca?”. Ele me sorri: “depende de onde você põe o acento”. Não sei se não me entendeu ou se zomba de mim.

Asleep

Avassaladora

Eu, bala
Doce
Solúvel em água
Velozmente
Atento contra a vida
E estilhaço a vidraça.

Frau Forster, 22/07/06

2 de jan de 2011

Sobre porque não gosto muito de violinos

Lá vamos nós. Escolhi o nome, agora é só começar a escrever. Já comecei, na verdade. Rascunhei algumas frases, parágrafos, versos. E algo me diz que talvez eu termine o tal romance até o final de 2011. Bom é ficar deitada na cama com essa chuva na janela. A luz entra lilás através da cortina lilás e tenho mil idéias sobre como colocar no papel o que carrego na cabeça. E no coração. Música sempre ajuda então capricho na trilha sonora. Quero todos os narradores para mim. Um texto fragmentado, não sei. Por que se escreveria um texto fragmentário? Eu sei.

Certa vez me recomenaram um livro muito interessante chamado O Prazer do Texto (Roland Barthes) - leiam! - e pensei que gostaria de escrever O Prazer de escrever, mas é claro que alguém já deve ser feito isso... Seja como for, me disseram recentemente que o que escrevo é literatura e isso me deixou realmente feliz.

Ao escolher a trilha sonora, esbarrei com duas versões de Clair de Lune, belíssima música - já devo ter falado dela em algum momento aqui no blog -: uma no piano e uma no violino. Maria Elisa Cevasco nos falou certa vez sobre como não gostava quando se sentia manipulada por filmes, músicas e afins que queriam nos comover. E nunca tirei isso da cabeça. Para mim é isso o que fazem os violinos, eles nos querem comovidos, envolvidos em sei lá o que dramático. Dos meus sentimentos cuido eu.

Violinos podem ser belos, mas são apelativos, querem arrancar de nós as emoções que lhe interessam. A cena pode ser um velho em seu leito de morte ou um rapaz prestes a pedir a mocinha em casamento. Violinos proporcionam a emoção fácil e barata de um filme hollywoodiano, como Titanic (1997) por exemplo. Aliás, eu nunca entendi qual é a desse filme: nunca vi graça nem me emocionei nem quis ser a Rose. Será que sou alguma aberração? Violinos, para mim, tem o mesmo impacto que um buquê de rosas.

(ah só para constar eu gosto de filmes hollywoodianos...)

Prefiro o som do piano: dá para sentir e saborear as notas sem o apelo sentimental do violino. Não tem o apelo fácil, nem o melodrama, nem qualquer coisa que sugira Titanic & cia. Mas é claro que algumas músicas precisam de violino, como Por una cabeza. Ok, acho que fui muito dura com o violino. Mas acho de verdade que ele não é tudo aquilo que parece - como muitas outras coisas nessa vida. No fim das contas, acho que ele só é superestimado. Como Titanic.

Recomendo: A rosa púrpura do Cairo (1985) de Woody Allen, embora a adorável Mia Farrow seja a eterna Rosemary para mim, e acho que sei extamente o que Cecilia sentia ao assistir os filmes em cartaz. Mas  não recomendo Simplesmente Complicado (2009) de Nancy Meyers - aliás a moda agora é fazer filmes sobre mulheres mais velhas, maduras, bem sucedidas, bem resolvidas, independentes e cozinheiras a procura de um amor que encontram um amor - e já virou clichê: vide Minha mãe quer que eu case (2007). Ou talvez tenha só pego birra de Meryl Streep... Não, realmente achei o filme fraco. Robin Hood (2010) é bonzinho, embora Russell Crowe seja tão expressivo quanto uma caixa de leite. Onde vivem os monstros (2009) de Spike Jonze é realmente muito bom e nos dá uma visão diferente sobre as crianças. Mas um dos melhores filmes que vi recentemente foi Donnie Darko (2001) de Richard Kelly e tem uma trilha sonora fan-tás-ti-ca, incluindo The killing moon (Echo and the bunnymen) e Mad world (Gary Jules)