12 de jan de 2011

20 e poucos anos: Sinceramente

Lô entrou irritada bufando na sala e eu já sabia até o que era: a máquina de lavar estava quebrada, o que fazia com que ao final de cada ciclo a roupa terminasse ainda encharcada. Ela se sentou no sofá, bufou uma última vez e espiou o que eu estava fazendo.

- São aquelas suas fitas?

Balancei a cabeça. Eu estava sentado no chão, procurando uma música numa das minhas várias fitas K7.

- Você já pensou que isso tá ficando ultrapassado?

Me virei para ela e fiz uma careta.

- Bom, também acho que baixar muitas da inernet é muito impessoal.

- E está cada dia mais difícil achar fitas virgens para as minhas gravações. Gravar CDs não é a mesma coisa, definitivamente.

- Não, não é mesmo. Mariana 3. O que posso encontrar nessa fita? Posso ouvir?

- Pode é claro. Tem Arnaldo Antunes, Frank Sinatra, Feist, Cat Power e um pouco de jazz.

Lô sorriu.

- Só você mesmo para fazer uma coisa dessas.

- É literalmente a trilha sonora da minha vida.

- Das suas paixões, você quer dizer. Acho isso tão bonito, você ter essas fitas todas com as músicas das suas namoradas. Ou quase-namoradas.

- Bonito? Tem gente que diz que é apego negativo o que eu tenho.

Lô se levantou e sentou perto de mim.

- Todo mundo é apegado a alguma coisa. E quem disser o contrário está mentindo. Mesmo. Você é apegado à boa música e as mulheres que de algum modo se conectam a isso.

- Acho que é o contrário: sou apegado às mulheres e à boa música que se conecta à elas. Mas não me sinto mal por isso.

- São lembranças suas, parte da sua vida. Também não te vejo preso em casa, ouvindo as fitas o dia inteiro. Você tá tocando a sua vida, né?

- Sim, tenho até um encontro no sábado.

- Mesmo? Então alguém está se dando bem aqui. Chamei um cara para sair e ele nem deu sinal de vida. Mais uma vez fico sem saber o que está errado - ela respitrou fundo - Enfim, vou acabar descendo para o litoral com a Clara. Vou com aquele biquini vermelho.

- O que causa furor?

- Não caçoe de mim! Ele bem que me rendeu boas histórias.

- Sim, eu sei, você me deu uma prévia delas, mas não entrou em detalhes.

- Nem vou.

Ela sorriu de novo. Dei-lhe um suave beijo na testa.

- Mas o que você está procurando?

- Uma música.

- Qual?

- Tenho vergonha de dizer.

- Hã?

- Não gosto nem um pouquinho da banda, mas uma música deles caiu como uma luva.

- Entendo. Que música é? Posso te ajudar - disse ela começando a mexer nas fitas.

- Sinceramente do Cachorro Grande.

- Eca. Entendo porque você tem vergonha. Não tem nenhuma fita com Coltrane? Quero me intoxicar com ele hoje.

- Tenho sim, deixa eu ver.

Procurei numa pequena pilha à minha direita e lá estava o dito cujo.

- Está aqui - disse entregando-lhe a fita.

- Vamos trocar? - e Lô me entregou outra fita.

Era a fita que eu procurava.

- Mariana 2. Ela foi importante, hein?

- Bastante. Obrigado. E fique com o Coltrane o tempo que quiser. Tem Johnny Mathis e Elvis Presley também. Só cuidado com a fita, ela é única.

- Oba. Obrigada, Raul. Pode deixar que eu cuido bem da sua fita. Sei que ela é única, assim como a Mariana.

- Sim, é, mas por que você diz isso?

- Porque a fita do Coltrane é a Mariana 1.

Ouvindo Sinceramente (Cachorro Grande) e Naima (John Coltrane)

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