18 de jan de 2011

Diário: Divagações noturnas

Gosto muito de sair à noite. Não, não sou muito de ir a baladações, essas coisas. De vez em quando é divertido, mas tenho amigas que fazem disso um ritual semanal. Bom, aí acho que cansa, né? Gosto de estar fora de casa à noite, simples assim. Ver céu, estrelas e afins. E a lua, é claro. O ar, o hálito, o hábito - são todos diferentes. E eu também. Acho que flutuo mais, saio da órbita terrestre.

Quando desci do trem hoje, ainda era de tarde, abracei o meu livro como uma menina abraça seu amante. De quem era aquela citação? Clarice Lispector. Estava aos pulos, queria terminar o livro a todo custo. Não, o livro não era de Clarice. E eu, estranhamente, era outra. Feita de bronze, mais forte de que qualquer material conhecido. Sentia toda a intensidade que meu corpo poderia suportar quase escapando pelos poros - uma tarde quente que logo ia desabar em chuva de verão. Mas, em desacordo com tudo, na minha cabeça só tocava I'll try anything once, o que me fez/faz lembrar. 

Saí munida de mim mesma de dentro do trem e corri para a escada rolante. Um sorriso que não descolava do meu rosto. Nada de cola Pritt. Corri até a escada por puro prazer. Prazer simples e bobo. Depois corri até o último vagão do metrô. Fiquei vendo as pessoas passarem e imaginar as vidas que levam. Quis pôr tudo em verso. Ou prosa, no meu caso, mas dizer que vai pôr em verso fica tão mais bonito!

Eu li não sei onde: "Quero alguém que me transborde" e achei bonito. Porque essa coisa de metade da laranja é coisa de Fábio Junior e, convenhamos, Fábio Junior é um dos inúmeros sujeitos para não se levar a sério. A lista é longa. Completo todos somos, a despeito do que tentem de convencer. Mas eu gostei dessa idéia de transbordamento... embora ela se refira ao excesso ou a algo além das nossas necessidades. Até hoje nunca vi alguém exceder as expectativas alheias - ou, se isso aconteceu, foi por um prazo muito curto de tempo para terminar em lágrimas. É claro. Deverei afogar minhas mágoas em rosquinhas de pinga? Não têm álcool, mas valem simbolicamente, não? Ou chocolate? Não, também não é a minha cara. Talvez eu me afogue num tanque de carpas - bastante simbólico. Não, ninguém vai se afogar hoje. Prefiro afagar o gato que não tenho.

E chega de simbolos. E que ninguém se meta com as minhas metáforas, tentando moldá-las à vontades torpes. Quero a concretude do asfalto com um toque de algodão-doce. Pode? Li hoje:

"As mulheres são decididas e realistas. Elas se escondem, dissimulam, quem sabe em função do que o homem esperava delas. Na verdade, conseguem ter o pé no chão e sonhar, qualidades que poucos homens têm ao mesmo tempo."

(BRANDÃO, I. de L. O beijo não vem da boca)

É exatamente isso o que tenho visto - o que me assusta e encanta ao mesmo tempo.

Voltava de trem. Noite fechada já. E eu na estação com a qual tenho uma relação de amor e ódio. Pensava em terminar o meu livro - o que lia e o que escrevia. E nas estranhas relações que se desenhavam na minha cabeça momentaneamente avoada. Será que é isso tudo mesmo? - "e" longo. Nem ligo. Devo estar fantasiando, de novo. Nem ligo. Logo passo e estou de volta ao normal. Normal? Só sei que cansei do desperdício, mas não reciclo mais nada.

Ouvindo Precious Illusions (Alanis Morissette)

Um comentário:

Rafael disse...

"As mulheres são decididas e realistas. Elas se escondem, dissimulam(...)"

Hesíodo, poeta grego do século VII a.C., denominou isso como "espírito de cadela".